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terça-feira

Capítulo 1 - A voz (parte 2)

E enquanto ela cozinhava depois do banho, eu fiquei deitada no sofá com os pés pra cima muito concentrada na minha leitura altamente construtiva.

- Ei, tá perto aí? - Perguntei pra Marcela que mexia algo muito cheiroso numa panela, toda trabalhada no baby doll e na toalha amarrando seu cabelo recém-lavado, mas mesmo assim arranjou espaço pra me mostrar seu dedo médio. - HAHAHAHA, ja posso ir botando a mesa?

- Pode sim, tô acabando já. - Dei um pulo serelepe do sofá, joguei o Harry Potter em cima da mesinha porta-tralha da sala e corri na esperança de tirar da miséria meu estômago, que se remexia tanto a ponto de eu não conseguir discernir entre borboletas em função da lembrança da voz do carinha ou se roncava de fome mesmo.

- Anda, gente. - Chamei. Verônica veio, fez seu prato e voltou pro quarto onde assistia a novela das oito, muito entretida.

- Não vai comer aqui, Alice? - Perguntei quando ela fez menção de voltar pro computador.

- Tenho um trabalho enorme pra terminar de audiovisual. Vou passar a noite inteira nisso. - Ela falou desanimada, e voltou pra lá com o prato.

Fiz meu prato e assim como Marcela me sentei no sofá da sala para devorar a deliciosa panqueca que chamava meu nome.

- E aí? Alguma novidade? - Perguntei entre uma garfada e outra.

- Eu preciso de um homem. Mas isso não é novidade mesmo, então nenhuma. - Respondeu Marcela, nós rimos. - Tô me cansando disso de ser livre em tempo integral...

- Namorado pra quê? Um cardápio inteiro pelo mundo a ser degustado e você querendo se limitar a um "de sempre"?!

- Beca, Beca, Beca... Eu não tenho tantos pratos a degustar quanto você, minha variedade é minima, quase nula. Nenhuma criatura decente me aparece! Paixões arrebatadoras nunca foram meu forte, eu queria um cara com um "eu te amo" embutido, pra viagem, com um olhar meigo e que soubesse como falar com uma mulher, como tratá-la. Não esse monte de brutamontes. - Eu revirei os olhos. - Beca, é porque você ainda é novinha, por isso você acha isso uma besteira.

- Novinha... Eu só sou o quê? Um ano e meio, dois, mais nova que você. Isso não faz de mim uma criança, Marcela. Eu sei bem o que pode acontecer caso hajam laços afetivos que não se pode controlar, não é isso que eu quero pra mim.

- Não é o que você quer, ainda. Eu vi o jeito que você ficou quando viu aquele cara hoje de manhã, o moreno cantando no corredor da escadaria. Você gostou dele.

- Mas não é isso que estamos discutindo no momento. O fato é que...

- Que você pretende fugir toda vez que sentir algo maior por alguém?

- Não é isso... Eu só não estou pronta pra algo dessa magnetude. Eu nunca tive muitos bons exemplos de paixões que deram certo, claro que eu acredito que exista esse tipo de coisa, mas não acho que seja minha hora de entregar o que quer que seja meu pra um cara. - Marcela ficou boquiaberta. - Que foi?

- Você nunca..?

- Nunca. - Marcela meio que riu sem acreditar. - Que foi?

- Tá, desculpa por rir, mas isso sim é novidade pra mim! É que você sempre se mostrou tão cabeça feita, tão adiantada, que eu pensei...

- Pensou errado. Assim como todo mundo pensa sobre mim. Me julgam desse jeito só porque eu não sou uma mosca morta. Eu falo com os caras que eu quero sem o menor problema, fico sem compromisso. Por acaso isso é ser devassa o suficiente pra acharem que eu dou pra Deus e o mundo?!...

- Também não é assim, Beca.

- Você sabe que é. - Falei, rindo sem humor e soltando o garfo. - Até você que é uma das melhores amigas que eu ja tive na vida pensa isso de mim, pode não ser exatamente desse jeito, mas pensou. Eu não sou o tipo de mulher que fica sonhando à espera do principe encantado que vai me namorar e me levar embora no cavalo branco. Eu me basto por enquanto, não vou dar pro primeiro que me disser eu te amo, mas também não tô pretendendo amar o que chegar primeiro. Não to esperando pelo cara certo, tô esperando por ter coragem o bastante pra fazer.. isso. Só.

- Eu queria ter essa convicção que você tem sobre si mesma. Às vezes eu não queria ser tão livre e quando me entrego às pessoas, elas não valem nenhum pouco à pena... Desculpa por pensar errado sobre você. Você é uma mocinha de bom coração, Rebeca, eu admiro isso. - Eu sorri.

- Obrigada. - E terminei a última garfada da minha panqueca. Então fui lavar a louça.

Capítulo 1 - A voz (parte 1)

Eu precisei voltar uns dez passos no corredor barulhento pra escutar outra vez. Era uma música lenta, agradável, magnífica. Mas não era pela junção dos acordes, das notas, Não era pela batida, ritmo. Não era por nada disso. Era a voz. Rouca, grave e apaixonante. Marcela e Verônica falavam e eu nem prestei dois dedos de atenção, eu só queria ouvir e ouvir.

Parei estática olhando pelo vidro da porta da sala de mídia, absorvida pelo som que me levara pra um lugar tão mais longe dalí. A voz vinha dele, tão misturado na música quanto eu estava em ouví-la. Com os olhos fechados, ele cantava com um sorriso no rosto que me fazia querer sorrir com ele, pra ele. O ritmo que ele mantinha batendo a mão no joelho, me fazia acompanhar com um balançar de cabeça, mas as batidas do meu coração ainda eram aceleradas. Sua boca me cantava a letra tão bem, e eu seguia a melodia junto a ele, que estava com uma camisa azul e branca encantadora como seus ombros pareciam também ser por baixo do tecido. E minhas mãos tremiam, suadas por um nervosismo em Fá sustenido menor. A música parou, mas eu ainda continuei lá. Parada. Sem voz. Sem ar. Pelo visto sem cérebro também.

- Oi. - Disse ele quando passou por nós no corredor fechando a porta. Eu daria minha olhadela mais paquerante, meu olhar mais penetrante, falaria "oi" e sairia rebolante super sexy. Mas o ar congelou em volta de mim e eu fiquei lá, inerte, bocó, olhando pra ele indo embora. De costas (e que costas) ele conseguia ser tão apaixonante quanto de frente, o jeito como ele andava, sua nuca y otras cositas más.

- REBECA. - Gritaram Marcela e Verônica, então eu as notei e voltei a lembrar que eu devia respirar.

- Deixem de grito, minha gente! - Marcela revirou os olhos, Verônica falou revoltada:

- Sim, se a gente não tivesse gritado, você ainda ia estar aí parada olhando vesga pra bunda daquele... Deus. O que foi isso, criatura?!

- Claro que eu não tava olhando pra bunda dele! - Resmunguei, voltando a andar. As duas me acompanharam.

- A não, a bunda dele foi só depois que ele disse "Oi" e você ficou muda, engasgndo com toda a baba dentro da sua boca por certo. Você tá bem?! - Marcela perguntara, olhando minhas mãos ainda trêmulas.

- Beca, você tá tremendo! - Verônica observou, dando de garra na minha mão. - Tremendo, suando e congelada. Quem é você e o que fez com a minha amiga?!

- Ai deixem de besteira vocês duas! - Falei, Verônira soltou minha mão que vivia um momento protestante e revoltada. - Vocês sabem quem ele é?

- Nunca vi, mas gato. Muito gato. - Verônica disse, olhando-o subir a escadaria da universidade (assim como eu e Marcela). - Mas tá bom Beca, a gente tem uma bela aula de Desenho e a professora já não vai com a sua cara, ou seja.. Tchau Marcela!

- A professora de Desenho não vai com a minha cara porque eu desenho melhor que ela! Rá.

- Encontro com vocês mais tarde! - Marcela disse e seguiu o mesmo caminho que ele, subindo a escadaria. Ele... Meu estômago nomeou-se avatar de Mortal Kombat, virando e revirando somente por lembrar da voz e da música.

Nota mental: Quero vê-lo outra vez. Preciso.


A aula durou a eternidade do intervalo de tempo da hora que eu o vi subindo aquilas escadas até quando Deus atendeu minhas preces e a vaca da professora ficou com uma dor de cabeça infeliz, mas tão infeliz que terminou a aula mais cedo. Rá.

Peguei minha bolsa, caderno e fui andando com Verônica pro corredor das salas de Marcela e Alice, pra podermos ir todas juntas pra casa.

Nós quatro morávamos na República de Belas Artes, um prédio cheio de apartamentos pros universitarios do campus perto da escola central de artes e recreação. Eu e Verônica cursávamos Moda, Alice fazia Cinema, Marcela fazia teatro assim como os gêmeos que moravam vizinho a gente, Breno e Bruno. E todos éramos voluntários na escola central, que era dos avós dos gêmeos, que são podres de ricos.

- Ei. - Alice falou enquanto procurava alguma coisa no estojo muito entretida. - Fila pro banheiro já tem? Tô morta de calor!

- Eu vou primeiro! Preciso urgentemente de um banho. - Marcela disse, manifestada se abanando toda suada. - A aula de expressão vocal foi ótima, mas deu um cansaço infeliz!

- Nem foi só em você. Haha - Bruno disse rindo e passando a mão no cabelo, bagunçando-o. Era bonito, mas não tanto quanto Ele. O porte de seus ombros era perfeito, mas não tinha os músculos dELE, nem a voz por causa do aparelho. Mas era fofo. Bruno saiu andando na frente, tirando a camisa. Aiai..

- Beca. - Verônica me beliscou, rindo. Breno e Bruno entraram no apartamento vizinho. - Pelo menos disfarce o olhar!

- A gente tem que observar as coisas boas dessa vida né não, amiga? - Marcela e ela reviraram os olhos, rindo. Alice achou a chave e rodou-a na fechadura da porta.

- Eu vou depois da Alice! - Verônica marcou seu lugar na fila pro banheiro, pondo umas sacolas na bancada da cozinha e abrindo a geladeira. - Hoje é a vez de quem fazer o jantar, hein?

- Marcela! - Gritamos eu, deitada no sofá, e Alice que estava ligando o computador no nosso quarto. Marcela se revoltou pondo a cabeça pra fora da porta do banheiro:

- Nada disso. Eu ja fiz o jantar antes de ontem e fui na rua hoje de manhã pagar todas as contas do apartamento! Hoje era dia da Beca!

- Um: Eu arrumei a casa, lavei o banheiro e a louça hoje de manhã. Dois: Você tem certeza de que quer comer um jantar feito pela minha pessoa? Eu particularmente não quero.

- Nem eu. - Observou Alice.

- Faz sentido.. Eu também não quero. - Verônica disse. - Eu arrumei a casa com a Beca hoje, a Alice fez o jantar e lavou a louça de ontem.

- Só sobrou você, Marcela! - Alice gritou lá de dentro.

- Anda, bicha! Toma banho e faz esse jantar que eu lavo a louça pra você! - Prometi. Ela mostrou a lingua, concordou e bateu a porta do banheiro.

- Nam! Tudo eu. Tudo eu. - Ela ficou resmungando sozinha dentro do banheiro. Pra variar. Marcela era a riquinha mimada mais prendada e simples que eu já conheci na vida.

(continua)