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segunda-feira

15 - A Praia (Parte 2 e 3)


- Chegamos mais rápido do que eu me lembrava. - Falei assim que Renato estacionou o carro se espreguiçando, ao lado do de Bruno, na frente do casarão de praia. - Mais rápido do que precisava, na verdade. 

- Se você não queria vir, devia ter inventado uma desculpa. Agora a gente já tá mesmo aqui, seu boy magia já deve estar lá pra dentro e eu quero me entupir de vinho até domingo! - Ele disse, saindo do carro pra pegar as cervejas, as garrafas de vinho, vódega e afins que vieram na mala. 

Respirei profundamente, abri a porta e fui ajudar a botar as bebidas pra dentro por motivos de eu não ia conseguir fazer a sóbria nestas condições. 

- Onde eu boto isso, Alice? - Perguntei, entrando na casa segurando alguns litros de bebidas sortidas. 

- O freezer tá limpinho, aliás, minha tia linda demais já deixou a casa toda arrumada pra gente.

- Beleza. - Andei pra cozinha, Bruno falava irritado com alguém no telefone. Deixei as garrafas em cima da mesa e corri. - Cadê os meninos? Tem que pegar os refrigrantes e as grades de cerveja lá com o Rê. 

Bruno murmurou um "Rê" tão debochado que deu pra ouvir de onde eu tava. Por um segundo me perguntei qual era o propósito dessas pequenas manifestaçõezinhas repentinas e enchi o peito de abuso, daí o segundo passou. Breno, Sal e João desceram as escadas correndinhos. 

- Opa, cervejas, cadê? - Breno perguntou. 

- Lá fora, ele tá trazendo as tequilas que ficaram ainda. - Os três bateram continência ao mesmo tempo e passaram pela porta. Eu e Alice rimos. - Cadê as meninas? 

- Levaram as coisas pra ir arrumando lá em cima, teve uma confusão com a divisão dos quartos. - Alice falou. - Tem problema você dividir o quarto? 

- Nenhum, mas o que foi? 

- Na última reforma, minha tia transformou o outro quarto do fim do corredor praticamente num salãozinho de jogos que acabou virando depósito também, sei lá. 

- Hum, entendi. Acho que pelo Renato também não tem problema não, só não quero ouvi piadinha do Sal depois. - Eu ri. 

- Pode deixar que eu falo com ele. - Alice sorriu, na mesma hora Renato passou do lado, carregando uma das grades com João, ouviu a conversa concordou logo com um "Tô dentro!" e seguiu seu caminho rumo ao freezer. 

- Ótimo. Vocês ficaram no primeiro do corredor, Marcela e João naquele que é mais pro meio, Veronica e Breno no da frente. Sal e eu pegamos o último do corredor e Bruno... 

- Na frente do meu. Porra Alice! - Completei, respirando fundo. 

- Eu não tive culpa, Beca. Quando a gente chegou a manada debandou na minha frente! 

Resmunguei baixinho e perguntei como quem não queria nada: 

- E a garota da vez, cadê? - Alice engoliu o riso e quando eu olhei pra trás, ele mesmo respondeu, puto:

- Ela não vem mais, a outra cama do meu quarto tá vaga agora, querendo aparecer por lá... 

- Que peninha, Bruno. - Eu disse com a mão no meu coraçãozinho. - Vai ter que ficar sozinho o feriado inteiro... 

- O que aconteceu? - Alice me interrompeu, só que eu continuei enquanto subia a escada: 

- Tirando pelas pimpolhas com que o Bruno anda saindo, os pais dela devem ter botado de castigo porque tirou nota baixa no colégio! - Fechei a porta do quarto e tive uma vontade gigante de sumir do mundo, mas antes eu ia sentar a mãozada na cara dele. 

A maçaneta da porta virou depois de uns vinte minutos, eu ainda implorava mentalmente pra voltar pra casa, com a cara enfiada no travesseiro.

- Não não não. - Renato entrou, reclamão. - Eu não vim pra cá pra te ver depressiva não. 

- Como você queria que eu tivesse? - Ele deu de ombros e sentou do meu lado. - Eu evitei qualquer conversa maior que "oi" ou "tchau" nos últimos meses, isso já aconteceu uma vez, Renato. Eu não quero isso de novo. 

- Não quer que ele te deixe de novo ou não quer mais nada com ele? - Eu fiquei calada, não consegui responder. - Só pra constar, eu posso saber o que ele fez pra você se importar tanto assim?

Eu enxuguei meus olhos antes que eu chorasse a história toda de novo e respondi:

- Alguma coisa entre uma pixação de giz e um Toddynho com torrada. - Eu suspirei. - Ele mudou, pra pior. E a culpa é minha. 

- Talvez você devesse falar com ele. 

- É. Talvez eu faça isso... - Eu baguncei o cabelo de Renato, levantando da cama. - Agora anda, eu não te trouxe pra cá pra gente passar o feriado inteiro trancados nesse quarto com tanta bebida lá fora. 

- Não seja por isso, Beca. Nós trazemos a bebida pra cá e eu tenho muitas idéias do que poderíamos fazer trancados aqui dentro. - Ele disse, bagunçando meu cabelo de volta. Eu ri. 

- Anda, deixa de besteira,. - E descemos a escada. 

~

Os meninos lutavam bravamente para defender seus times num campeonato de video-game completamente entretidos e nós nos contentávamos com o baralho na mesa da cozinha, regadas de drinks que Beca fazia com frutas e umas cachaças coloridas. 

- Beca, minha filha... - Chamou Verônica - Todo o dom que Deus não te deu pra cozinhar, com certeza ele desviou presses drinks divinos aqui!

- Pena que hoje eu passo suas maravilhas alcoólicas. - Marcela falou. 

- Como se você tivesse a opção de tomá-las, né Marcela? - Respondeu Beca, me servindo mais um de morango. - Aqueles remédios já te embebedam o suficiente. 

- Olha, bati! - Marcela falou, dando pulinhos na cadeira, mostrando suas cartas. 

- Não bateu não. Tem dois Ás de ouro e um de copas. Você só bate quando tem os três iguais. 

- Mas Beca, o coraçãozinho é tão lindo, de que vale ter tantos ouros e não tê-lo. Ah! Cansei dessa porcaria, desisto. - Nós rimos e largamos as cartas também. 

- Menina Alice que tá só nas viradas de copo. - Verônica observou, eu ri nervosa e virei o drink, todo de uma vez. - Vai devagar, criatura! 

- Alice, você tá pretendendo entrar em coma alcoólico no primeiro dia da viagem, é isso?

- Não, gente. É... É que... Eu to nervosa. É isso. 

- Nervosa com o quê, Lice? A casa tá tranquila, todo mundo bem acomodado, tem álcool e comida pra nego se fartar... - Marcela falou - Qual o motivo pra ficar tão nervosa? 

- É besteira. - Eu disse. - Deixa pra lá. É idiota. Vocês vão rir. - As três sorriram e eu com certeza fiquei mais vermelha que o negócio de morango no meu copo. 

- Que besteira é essa agora? Você sabe que a gente não vai rir de você, bobona. - Rebeca me confortou, afagando o meu braço. 

- Tá. Eu conto se você me der outro disso, Beca. - Eu respirei fundo, quando eu respirei fundo tinha mais coisa de morango na minha frente. Eu virei e falei ainda com os olhos fechados - É que eu to nervosa porque é a primeira vez que eu e o Sal vamos dormir juntos. É isso. Podem rir agora. 

- Own, Alice! - As três quase cantaram, vindo e me agarrar. 

- Do jeito que você tá nervosa, eu pensei que você tinha assaltado um banco sem avisar pra gente! - Verônica disse. - Fica tranquila, mulher. 

- Eu já imaginava que fosse isso. - Beca disse. - De quê você tá com tanto medo assim? Garanto que, te atacar de surpresa no meio da noite, ele não vai! 

- Não é isso. É que... E se ele não gostar? 

- Alice, esse menino lambe o chão que você pisa, ele acha lindo se você dá um espirro, é quase impossível que ele não goste do que quer que você faça dentro daquele quarto! - Marcela respondeu, roubando duas uvas do drink de Verônica.

- É que eu sei quantas primeiras vezes esse filho da mãe já teve e quantas eu não tive. Isso me dá um nervoso, uma agonia. E se eu não tô pronta ainda? - Então Beca falou quase que automaticamente:

- Ele vai entender! Do mesmo jeito que entendeu da outra vez, quando vocês começaram isso de "esperar". Se você não quiser dessa vez, ele vai ter que ter paciência, afinal ele concordou.

- Mas... Eu quero. - Minha cara certamente atingia 50 tons de vermelho escarlate, daqueles, bem embalagem de chocolate Batom. Era difícil admitir, não sei porquê. 

- Como assim "da outra vez"?! - Marcela levantou a sobrancelha, indignada. - Teve alguma "quase-vez" disso aí que eu não fiquei sabendo? É isso?! 

- Na verdade, foi mais para um mal-entendido que uma "quase-vez". - Respondi, Beca contou a história: 

- Eu deixei um pacotinho de camisinha dentro da bolsa que a Alice tinha me emprestado no dia do apagão, acabei saindo sem a bolsa mesmo, daí o Sal viu e pensou tudo errado. 

- Eu fiquei tão envergonhada, tão nervosa que resolvi propor a história de esperar, mesmo que eu não quisesse esperar tanto assim. - Verônica não se aguentou: 

- Até porque, licença Alice, mas com um bofe lindo desses, eu poderia chamar você de guerreira por ter se aguentado esse tempo todo. - Nós rimos por um bom tempo. - Mas você preparou alguma coisa?

- Tipo? - Perguntei ficando ainda mais nervosa. 

- Tipo lingerie, óleos de massagem, música, sei lá! - Marcela sugeriu, eu entrei em pânico. 

- Eu... Eu... Só pensei na lingerie... Ai como eu sou burra...

- Calma Alice. - Beca falou sorrindo e bagunçando o meu cabelo. 

- COMO "calma"?! 

- Tendo calma, pô. Esse estresse todo só vai piorar a situação pra você. Você só tem que estar linda lá, e deixar as vontades, e deixar ele ir te guiando também. - Verônica disse, me dando um copo d'água.

- Vocês têm noção do que é ter que concorrer, que competir, com todas aquelas modelinhos, e groupies, e periguetes, e SIM, TUDO NO PLURAL... 

- Relaxa. Uma hora na vida ia chegar um momento que saísse do seu controle, Lice. Fica calminha que vai dar tudo certo. - Falou Marcela, e Beca: 

- E, caso não queira nada por hoje, é só subir e dormir antes desse campeonato irritante acabar. Ou simplesmente dizer pra ele. O Sal vai entender. 

- O que tem eu? - Ele entrou na cozinha, sorrindo besta. Me deu um beijo na bochecha e foi em direção à geladeira. 

- Nada não, moço. - Eu disse, mais devagar do que planejei, já com a voz embargada, meio afetada pelos drinks de Beca. 

- Beca, você por acaso está embriagando essa menina? - Renato perguntou, apontando pra mim e se chegando perto de Beca. Apertou a bochecha dela e também se encaminhou à geladeira pra pegar algumas cervejas. 

- Eu não to embebedando ninguém não. Sou um fantoche aqui, cara. - Beca falou, dando de ombros e rindo. Renato sussurrou alguma coisa no ouvido dela, não deu pra ouvir o que era, só sei que ele tomou um tapa no ombro junto com um resmungo e seguiu de volta pra sala. 

Sal só ria, escorado na geladeira enchendo o copo de água gelada.

- E você aí, tá rindo de quê? - Perguntei envergonhada. Ele andou devagarzinho até onde eu tava e sussurrou no meu ouvido: 

- É segredo. Só conto se você vier comigo agora. - Eita. Levantei da cadeira, nem olhei pra cara das meninas que era pra não perigar uma crise de riso ou de choro. 

Subi as escadas com a mão dele pegada na minha. Sal parou na porta do quarto, me beijou a bochecha outra vez, e tirou um lenço do bolso. 

- O que é isso? - Perguntei. Ele cheirou o perfume no meu pescoço e sussurrou outra vez na minha orelha, enquanto vendava meus olhos com o lenço. 

- Não se preocupa. Eu juro que nós não vamos fazer nada que você não queira. - Concordei com um aceno de cabeça.

Ouvi a porta abrindo, ele me puxou devagarzinho pelo braço - andei uns três, quatro passos e ouvi a chave girar, trancando a porta. Ele falou um "Calmaí" e em alguns segundos começou a tocar uma música muito boa. Quando ele tirou a venda dos meus olhos, meu queixo quase bateu no chão.

Tinham velas espalhadas por todos os lados e uma rosa, vermelha, sozinha em cima da cama. 

- Eu não acredito que você fez isso. 

- O quê? - Ele perguntou, com a voz aflita - Você não gostou? N-não tem pro-p-problema, eu só quis f-fazer uma coisa bonit... Esquece, esquece. - Ele começou a catar umas velas do chão, agoniado. 

Eu o abracei. O coração de Sal batia acelerado, nervoso, dava pra sentir. 

- Se acalma, moço. Tá tudo... Lindo! 

- Eu amo você. - Ele disse. Eu o beijei. Ele me puxou do chão, me pôs no colo e me deitou na cama. 

~

Eu já estava quase dormindo quando a porta do quarto abriu. Renato cantarolava uma música qualquer do Elton John segurando sua taça de vinho.

- Você fica linda me julgando. - Eu joguei meu travesseiro nele. 

- Eu não estou te julgando. Só não gosto da música. 

- Como você não gosta dessa música, ela é maravilhosa!

- Não me sinto muito bem com músicas românticas. 

- Mas é o Elton! - Ele se jogou em cima de mim, ainda argumentando - And this is your song, e este vinho está incrível, e tem uma cama rangendo no quarto no fim do corredor, e esse barulho magnífico me lembra dos tempos de faculdade quando eu tinha meus surtos heterossexuais.

- Humm, fale-me mais sobre esses surtos fabulosos. - Falei, tomando a taça de vinho da mão dele e bebi um gole generoso. 

- Eu costumava ficar com garotas como você, Beca. - Ele se ajeitou, pondo a cabeça no meu colo. Era meio que uma confissão perdida se misturando com o vinho e a umidade do ar. - Isso me deixava confuso.

- "Como eu"? Como assim "como eu"? 

- Amigas, cheias de personalidade, que me deixavam apaixonado por me deixar conhecê-las. Assim meio bocó, meio genia.

- Mas você ficava com elas pra fingir..?

- Não, não. O que me deixava confuso é que eu me sentia atraído por elas tanto quanto me sentia pelos caras. Mas há muito tempo eu não encontrava alguém como você. 

- Então talvez eu ainda possa apostar minhas fichas no chefe?

- E talvez eu te dê um aumento. - Eu ri, debochada. - E você está tão linda nesta camisa de time, então eu sinto que preciso cantar Elton John para me lembrar do que eu gosto quando você não está por perto. 

Nós rimos mais um pouco e ouvimos o barulho do mar la fora até o sono se jogar em cima da gente. 

quarta-feira

Capítulo 14 - Estamos Aqui Pra Isso (Parte 3)


E assim o rancor ia durando quase um mês e meio entre cumprimentos formais de bom dia, tarde ou noite, alternados pelo nível da preguiça de fingir um sorriso, tudo trabalhado no desgosto. Nesse meio tempo eu estudei e trabalhei feito uma vadia, tentando abstrair certas coisas erradas da minha cabeça. 

Eram duas e quarenta da manhã de uma quarta-feira um tanto cansativa quando finalmente o último pinguço largou meu balcão. 

- Quer carona, moça? - Eu sorri esfregando o suor da minha testa com o braço. 

- Chefinho, aprecio sua oferta, mas a sua pessoa mora do lado mais contrário possível do caminho da minha casa. - Renato continuou sorrindo. 

- E quem foi que disse que eu estou indo para a minha casa? - Eu passei a flanela na última gotinha alcoólica sobre o balcão e olhei surpresa descansando as mãos na cintura.

- Hmmm. Olha só que beleza, pelo menos um de nós terá uma noite decente. 

- É só um daqueles casinhos... Nada com esperança, nem romance, ou essas coisas babacas. - Ele falou, olhando pro nada. 

- E já tem tanto tempo que nenhum de nós dois tem dessas coisas babacas que eu to quase aceitando propostas não-babacas pra satisfazer pelo menos meu ego. 

- Ainda bem que conseguimos superar toda essa tensão sexual entre a gente, porque olha, eu até te faria uma dessas propostas. - Eu joguei minha flanela nele, e nós rimos.

Sal se aproximou da bancada, pigarreando.

- Vou fechar o escritório lá em cima e vou pro carro, se quiser a carona, tá tudo de pé por aqui pra você... - Renato falou num sorrisinho malicioso, eu fiz que sim com a cabeça, ele apertou a mão de um Sal claramente indignado com o pedaço da conversa que tinha ouvido, e saiu. 

- Vai pra casa agora? - Sal perguntou, me ajudando a pular o balcão com seus ombros fortes e comprometidos. 

- Aham... - Falei, pegando minha mochila. - Acabei de arrumar uma carona. Algum recado pra Alice? 

- Não, não, eu a vi antes de vir pra cá. - E fomos caminhando devagar pra entrada. 

- Vocês estão bem?

- Estamos sim... Eu tava até querendo falar com você sobre o aniversário dela mês que vem, queria fazer alguma coisa.

- Eu tinha pensado sobre isso também. A tia dela tem uma casa numa praia aqui pertinho, e como coincide com a nossa semana de férias e com o aniversário dos gêmeos também, eu tinha pensado em irmos todos pra lá passar a semana.

- Você pensa em tudo. 

- Ainda não se acostumou com isso? - Ele riu.

- Mas e o nosso trabalho, como fica? 

- Deixa comigo. Eu falo com o chefe. - Sal levantou a sobrancelha e parou encostado no portão. 

- De uns tempos pra cá vocês ficaram bem próximos... BEM próximos mesmo. 

- O que eu posso fazer? - Fiz minha cara mais melosa. - Ele é minha alma-gêmea, o homem dos meus sonhos! 

- Você tá mesmo saindo com o chefe, Beca?! 

- Digamos que eu estou sendo irônica, Sal. Pelo amor de Deus, disso que te deram pra criar esses músculos, não tinha pro cérebro não? - Eu disse dando um pulinho pra bagunçar o cabelo dele. Renato parou o carro na frente do portão e buzinou. - To indo! - Gritei, pedindo com a mão que ele esperasse. - Boa noite, garotão. Aproveita pra dormir um pouco e tirar essas caraminholas da cabeça... 

Eu virei de costas pra ele e comecei a andar pro carro.

- De qualquer forma, - Sal me segurou pelo pulso e eu não vou mentir que todo e qualquer coisa que sequer pensasse ser um pelo no meu corpo se arrepiou e meus joelhos fraquejaram por um segundo. - Cuidado. Por favor, tenha cuidado, Beca.

- Não se preocupe. - Eu tratei de me livrar do contato com a mão dele, então ri, dando um murrinho carinhoso no ombro dele. - Eu sei me cuidar muito bem, garotão. - E saí dali praticamente correndo. Enquanto minha consciência gritava sem parar: "Ele é dela, Rebeca." "Ele nunca vai ser seu!" "Você ainda não parou com essa palhaçada?"

Entrei no carro e fiquei calada até chegarmos no portão da república. 

- Você tá muito quieta. 

- Não é nada. - Tratei logo de me achar um sorriso no canto da boca e arquear a sobrancelha. - Acabo de lembrar que eu ouvi alguns boatos sobre nós dois termos um caso.

- E nós temos? - Renato perguntou, muito sedutor. 

- Ainda não, chefinho. - Eu disse dando um beijinho na bochecha dele, abri a porta e saí. - Ainda não.

- Vou me lembrar disso! - Sorri, pondo minha mochila nas costas. 

- Eu também, principalmente quando eu estiver deixando de dormir pra terminar dois trabalhos da universidade enquanto você estiver na gandaia. 

- Se quiser vir também, eu sempre quis tentar uma coisa assim a três. - Eu ri, muito.

- Muito obrigada, mas essa eu vou passar. O recalque é todo meu. 

- Boa noite aí, eu vou indo... Acho que tem alguém esperando por você alí em cima. - Olhei pra trás, Verônica e uma garrafinha de café, sentadas lado-a-lado no primeiro degrau da escadaria, me dando tchauzinho com a mão.  

- Boa noite pra você também, e cuidado por aí na vida. - Renato sorriu e saiu. Fui subindo a escadaria. 

- Ainda acordada, amiga? - Perguntei, sentando do lado dela.

- Fiquei acordada te esperando pra você dizer o quão linda eu sou. - Ela disse, muito seriamente, virando o restinho de café na xícara. - Eu fiz a sua parte escrita naquele trabalho em dupla de História da Arte, fica faltando só você me dar os croquis pra anexar no de Introdução à moda. 

- EU JÁ DISSE QUE VOCÊ É UMA LINDA? - E pulei em cima dela num abraço, ela riu. - Por que você fez isso tudo, criatura? Deve ter dado um trabalho da porra fazer aquilo tudo sozinha Verônica! Você devia ter deixado pra eu terminar! Você é uma linda, mas realmente devia ter deixado pra eu terminar.

- Beca, você tá fazendo três turnos pelo menos três dias na semana, no centro comunitário, na universidade e na boate, trabalhando nos finais de semana, quase nem para mais aqui em casa pra gente reclamar da sua comida ruim ou botar a conversa em dia... E eu também não gosto nada de te ver dormir nas aulas, babando em cima dos seus desenhos. - Veronica falou enquanto bagunçava meu cabelo, eu fiquei calada por um bom tempo, envergonhada. 

- Eu vou te compensar pelo trabalho, não se preocupe. 

- Não precisa. Só arrume seus horários. Pare de tentar se manter ocupada o dia inteiro. - Ela disse. 

- Eu penso em muitas besteiras quando tô desocupada. - Falei sem conseguir olhar pra ela direito. 

- Pensar em besteira de vez em quando até faz bem, principalmente quando é uma besteira tão mal-resolvida. A besteira mais mal resolvida da cidade. 

- Faz bem pra quem? - Perguntei levantando a sobrancelha. 

- Pra alguém que está prestes a ter uma estafa, porque prefere se matar ao invés de encarar seus sentimentos de vez. - Ai. 

- Eu não tô fazendo isso pra fugir de ninguém.

- Apenas de você mesma. - Eu fiquei emburrada. Verônica sorriu, me abraçando por um tempo. - Olha só pra você Beca, você tem andado exausta, sem saco pra sair com a gente e pelo amor de Deus há quanto tempo você não depila suas pernas? 

- Talvez eu esteja um pouco descuidada ultimamente, mas...

- Beca, eu sei que você ainda tá magoada com toda essa história entre você e o gêmeo bonzinho, mas isso não devia ser um motivo pra se esquecer de você mesma, do quanto você é linda e da fila gigante de rapazes que adoraria te fazer esquecê-lo. - Eu ri, olhando pros lados. 

- Não tô vendo fila nenhuma. 

- Você não tem se permitido ver muita coisa há algum tempo. Cê devia voltar a sair com a gente, voltar a se divertir, voltar a se permitir enlouquecer às vezes. 

- Da última vez que eu tentei seguir meus instintos não deu muito certo. 

- Isso não quer dizer que vá dar errado todas as vezes. Mas no fim das contas é você quem sabe e eu não vou me meter mais. - Ela parou um instante fazendo uma careta muito engraçada. - Credo, eu tô parecendo a Marcela bêbada com aquelas crises de conselhos responsáveis dela. 

- É verdade. - Concordei antes que ela voltasse a regar minha cara de novo com todas aquelas verdades. - Obrigada, V. 

- Estamos aqui pra isso. - Ela me empurrou. - Agora anda, vamos dormir que amanhã é meu dia de fazer o café. - Eu ri e levantei, andando pro apartamento. 


O alarme do meu celular começou a gritar aquela música irritante que eu costumava adorar antes de colocá-la como despertador, eu esfreguei meus olhos um instante e esmurrei o aparelhinho algumas vezes tentando encontrar a porra do botão certo de desligar, posto que não havia em mim um pingo de coragem pra levantar aquela hora, quanto mais pra procurar a porcaria de um botão pra calar a boca do Adam Levine - mesmo tendo as mais variadas teorias sobre como fazer isso nos meus mais memoráveis devaneios. 

Sentei na minha cama e fiquei olhando minhas próprias pernas e meu Deus do céu há quanto tempo elas não sabiam o que diabos era uma Gilette? Enfim, cuido disso outra hora. Tinha prometido pra mim mesma que faria o café da manhã no lugar de menina Verônica pra compensar o trabalho. 

Abri devagarzinho a porta do quarto, uma vez que Alice roncava seu vigésimo quinto sono e eu não gostaria nem um pouco de acordá-la. 
Antes mesmo de chegar à cozinha eu ouvi um barulho muito esquisito vindo do banheiro. Dei três toques na porta e abri. 

- MMWUUUULLBRRRLL!!!

- Ah meu Deus, Marcela, você tá bem? - Pergunta idiota, a menina tava quase verde, com a cara enfiada no vaso e vomitando como se não houvesse amanhã. 

Ela fez uma longa pausa pra respirar, sentou no chão, desajeitada e com algum esforço, falou:

- Eu t-tô legal. - Então enfiou a cara no sanitário outra vez. Eu corri pra segurar seu cabelo. - T-tudo sob contro.. WURLLLB! - E lá se foi o resto de seja lá o que ela tenha jantado.

- Minha gente! Há quanto tempo você tá assim? - Perguntei afagando suas costas enquanto ela vomitava suas tripas fora. 

- Hmm... Uma hora, eu acho... WWUUUULLBRRRLLLL... Não sei. 

- Por que você não chamou nenhuma de nós?! Pelo amor de Deus, Marcela, você tá verde, transparente, sei lá! O que foi que você comeu? 

- Aquelas bailarinas filhas da.. WUULLRRLLB..!!! - Agora além dos engulhos, havia soluços de choro. - Eu comi depois do ensaio pro municipal com elas... Devem ter posto laxante ou.. Alguma daquelas porcarias no meu pra... Pra... P-pr... WWUUUULLBRRRLL.. Enquanto eu fui ao banheir... WURLLBL!!!!

- Own Marcela, por favor, não chora senão você vai acabar engasgando. - Eu juntei um pouco de água da pia com as mãos e lavei o rosto dela. - Olha, segura seu cabelo um instante, eu vou alí nos meninos pedir pra algum deles ir ao hospital com a gente. 

- Não... Não precisa de hospital não, Beca... WURRLLBL... Já tá passando, já vai passar. 

- Você tá gelada, Marcela! Sua pressão deve tá muito baixa, você precisa de um médico.

- É a última... Coisa que eu preciso agora, Rebeca! 

- Mas Marcela... - Ela me interrompeu.

- E se me derem um atestado? E se... WULLBRLL.. Se me internarem, eu não vou poder ensaiar o t-tanto que eu preciso...

- Marcela, você não tá entendendo, é a sua saúde, criatura! 

- Não, Beca. - Ela respirou por um longo instante. - É o meu futuro... A chance da minha vida... Eu só preciso de um soro caseiro, e descansar um pouco. Já tá p-passando... 

- Mas Marcela... - Ela interrompeu outra vez.

- Não precisa se preocupar. Eu... Hmm... Eu vou ficar bem. É só uma indigestão... Só isso. 

- Tudo bem, se você quer assim. - Não era muito fácil lidar com a teimosia de Marcela. Eu levantei e segurei o braço dela, gelado. - Eu vou fazer o seu soro, vem. Aqui tá muito abafado, você precisa de ar. 

- E se me der vontade de vomitar outra vez? - Eu dei descarga e a ajudei a se levantar. 

- Você corre pra cá de novo. 

Eu fiz o café e o soro enquanto Marcela ia quase voltando a sua cor normal, mas não comeu nada. 

- Bom dia. Oi, Beca. - Bruno falou quando tirou os fones, num tom mais formal do que o necessário, entrando junto com aquele seu velho conhecido meu, o calçãozinho vermelho de correr. Sentou ao lado de Marcela, passando a mão pelos cachos dela. - Tá tudo bem com você, priminha? 

Marcela fez que sim com a cabeça. Ele sorriu e ficou lá um tempo, depois veio andando em direção a mim e o meu coração em direção à puta que pariu de tão rápido que batia.

- O que ela tem? - Bruno perguntou quase sussurrando pra não acordar Marcela, e pra quase sussurrar ele precisava chegar perto. Perto demais. 

- Quando eu acordei ela tava morrendo de vomitar no banheiro. - Falei baixinho enquanto mexia qualquer coisa que definitivamente não precisava ser mexida na panela, porque eu precisava mexer em alguma coisa pra não entrar num colapso nervoso. - Eu pedi pra te chamar, pra levá-la pro hospital mas ela não quis. Alguma coisa sobre atestado e os ensaios que ela ia perder, coisa assim. 

- Marcela ainda vai se matar pelo ballet qualquer hora dessas... - Ele disse, pegando com a mão algo da panela que eu mexia. 

- Eu tô preocupada com ela. 

E então vieram as três palavras que me deixaram com as pernas bambas.

- Mas vem cá... - Bruno falou se chegando mais perto e não tão discretamente assim, me afastei.

- O quê?

- Vo... Você pediu mesmo pra ir me chamar? - Sério, Deus. Eu podia ter começado meu dia sem essa.


- Você entendeu o que eu quis dizer. - Falei e saí andando pelo corredor. Por causa de um orgulho que não seria derrotado outra vez, mesmo com o coração inchado de saudade.

sábado

Capítulo 14 - Estamos Aqui Pra Isso (Parte 2)

- Vai você. - Marcela mandou, eu reclamei mas fui. 

Fui e tomei um susto.

- Oi. - Era o rapaz, aquele rapaz. Ombros fortes, cabelo curto, moreno, lindas e convidativas mãos. O carinha que eu peguei na festa. 

- Er... Hm... Mmm... - Alguém, por favor, pega uma pá pra juntar os cacos da minha cara e uma vassoura pra varrer toda a ressaca moral que não me permitiu falar alguma coisa. 

- Rebeca, né? - Meu estado de leseira não me deixava falar. - Sou eu, o Gui... 

A gente se conheceu ontem, na festa... - O coitado já tava constrangido e não era pra menos, eu olhava pra ele como se ele fosse um ET.

- Eu lembro de você! - Marcela disse pra salvar minha vida. - Vocês já se conhecem? O Gui faz Educação Física, vai ser o novo instrutor do Centro Comunitário. Beca também dá aulas lá.

- Que bacana. - Foi o que saiu da minha boca. - Colega novo. Super bacana.

- Nossa, que estranho. Eu vim deixar os documentos que ficaram faltando no cadastro lá pra Marcela e te encontro aqui, tô com o seu celular. 

- Meu celular! - Porra, eu tinha perdido meu celular. Gui entregou um envelope amarelado pra Marcela e perguntou: 

- Tá ali no carro, eu to um pouco com pressa, tenho que pegar meu irmão num aniversário, será que você pode descer comigo lá pra buscar? 

- Claro. Vou sim. Sem problema. Aham. 

- Então, obrigada por me receber uma hora dessas. Vou indo. - Ele deu um beijinho carinhoso na bochecha de Marcela. 

- Tchau. - Ela falou. Eu saí acompanhando o rapaz pela escadaria. 

- Desculpa ter saído daquele jeito ontem. - Falei. - Eu tava com a cabeça um pouco longe. 

- Não tem problema. - Ele riu com o canto da boca. - É muita coincidência!

- Verdade. - Eu tentei rir também, só que soou um pouco mais agudo do que eu esperava. - Ér... Como foi mesmo que eu perdi meu celular? - Agora Gui riu com a boca inteira. 

- Bom, você estava tentando sair da festa meio que  desesperadamente, daí eu falei "Você pode pelo menos me dar seu telefone?", então você tirou ele do bolso, jogou pra mim e saiu. 

Eu discretamente escondi meu rosto com as mãos. 

- Me desculpa, sério, me desculpa de verdade. Ontem eu tava fora de mim. 

- Não se preocupe... - Ele disse, enfiando o braço pela janela do carro. - Pelo 
menos foi engraçado. - Pegou meu celular e me deu. 

Nós dois ficamos parados, olhando para a paisagem por uns três minutos inteiros até eu me lembrar que ainda estava com a minha camiseta gigante do Patolino no meio da rua. 

- Então... - Eu disse - A gente se vê qualquer dia?

- A gente se esbarra lá pelo Centro... Eu vou indo. 

- Ér... Vou voltar pra lá. - Apontei pro apartamento, idiota. - E me desculpe de novo. - Gui sorriu mais uma vez, me deu um beijo na bochecha e entrou no carro. 

- Tchau e não se preocupe, moça mais bonita da festa. - "A mais babaca também."

Ligou o carro, saiu, eu voltei pro alto da escadaria e sentei ao lado da cara maquiavélica de Marcela que tava lá stalkeando tudo. 

- Como assim ele tava com o seu celular? 

- Foi ele, o cara que eu fiquei na festa pra fazer ciúmes no Bruno. - Ela fez que sim com a cabeça, depois bagunçou meu cabelo. 

- Como é que você consegue ficar com os caras gatos que eu conheço assim, no mesmo dia? - Eu dei um murrinho no braço dela. 

- Ah cala a boca, Marcela. - E nós rimos por mais meia-hora, dessa e de outras besteiras, até Bruno abrir o portão.

- Boa noite, meninas. - Ele passou deixando um beijo na testa de Marcela, nada pra mim e o perfume na roupa era de mulher, rapidamente entrou em seu apartamento, fechando a porta. 

- Por que você não vai lá conversar com ele? 

- Eu não quero conversar com ele. - "Mentira, eu quero." - Acho que não tem mais nada pra ser dito. - "A não ser esse monte de coisa entalada na minha garganta."

- Bom, você quem sabe. - "Não, eu não sei."

quarta-feira

Capítulo 14 - Estamos Aqui Pra Isso

Eu fiquei sentada naquele sofá, olhando a porta como se tivesse acabado de levar uma bofetada na cara. E olhando a porra da porta eu não sabia no que pensar pra me sentir melhor. Ele havia me derrubado de um jeito que eu não consegui mentir, nem pra mim mesma.

- Por favor me diga que a minha cama não foi maculada. - Alice vinha se arrastando pela parede umas duas horas e meia depois de Bruno ter saído. Esfregando os olhos, sentou do meu lado jogando os pés sobre mim.

- Não se preocupe com isso. - Respondi num sorriso sem graça, olhando pra baixo, tomando um longo gole de café, tentando acordar.

- Bruno ainda tá dormindo? - Ela perguntou.

- Não, ele foi embora. - Eu levantei e fui andando de volta pro quarto antes que ela viesse perguntar qualquer coisa e eu começasse a chorar de tanta ressaca moral pelos últimos cinco ou seis anos da minha vida. - Tem pizza ali na mesa, se quiser.

Ele havia arrumado minha cama, como se nada tivesse sequer cogitado a hipótese de acontecer. E o cheiro dele tinha se empreguinado em tudo bem mais do que deveria. Em tudo, inclusive em mim. Então vamos fingir que eu não chorei feito uma vadia, cheirando meu travesseiro até cair no sono outra vez, beleza?

Acordei com a realidade puxando meu pé.

- BECA! Socorro! Urgente! - Alice.

- O que foi? Quem morreu?

- Meu salto, quebrou. Empresta aquele seu vermelho? O Sal já tá lá embaixo esperando, por favor por favor por favor. O vermelho.

- Pega logo, ta bem aqui debaixo da cama, em algum lugar. - Ela abaixou pra caçar o bendito sapato. - Que horas são?

- Quase onze. - Ela bateu a cabeça no coisa da cama quando eu me sentei. - Ai cacete.

- Humm, tá cheirosa. Menino Sal vai se dar bem hoje?

- Você já se deu muito bem por todos nós hoje de madrugada e além disso a gente ainda tá nisso de ir devagar.

- Em primeiro lugar, a última coisa que me dei hoje na vida foi "bem", e em segundo, se você quiser que eu diga pra ele que você tá odiando isso de ir devagar, eu digo na boa. - Eu ainda consegui rir antes de levar um murro no ombro.

- Se você abrir a boca, eu vou garantir pessoalmente que você não consiga fechar outras coisas nunca mais, Rebeca. - Ela falou, apontando ameaçadoramente o salto na minha direção enquanto calçava o outro.

- Tudo bem, tudo bem, foi só uma sugestãozinha. - Sal gritou qualquer coisa lá de fora, eu baguncei o cabelo dela. - Anda logo, bonitona.

- Vai ficar em casa hoje?

- Amiga, eu tô pensando se eu vou sair desse quarto algum dia.

Alice riu, fechou o sapato, bagunçou um pouco a franja, me jogou um beijinho, sorriu e saiu rodando a saia do vestido, enchendo o quarto de perfume.

Mais de meia hora pra me livrar da extrema preguiça de levantar daquele monte de sei lá, misturado com cachaça, misturado com saudade no cheiro dos meus lençóis.

- Bom dia. - Marcela disse, rindo da minha cara derrotada.

- Bom dia, sua linda. - Dei um beijinho na bochecha dela e sentei no chão, roubando uma das almofadas fofas do sofá. - Cadê todo mundo?

- Alice saiu com o Sal ainda agora, Verônica foi pro cinema com Breno. - Ela falou, sem tirar os olhos da tv ou a colher da boca, me jogou outra colher e indicou com a cabeça o prato ainda cheio de brigadeiro. - Quer?

Fiz que sim com a cabeça, peguei uma colherada bem nutrida e como quem não quer nada, perguntei:

- Sabe se o Bruno também saiu?

- Ouvi Breno falando que ele tinha ido pra não-sei-onde com não-sei-quem.

- Hum... - Automaticamente eu grudei os olhos na tv também.

- Eu também ouvi as meninas comentando que ele tinha dormido aqui. Com você.

- É.

A gente ficou calada até acabar todo o brigadeiro.

- O que você tinha ontem? - Perguntei, desligando a tv.

- Eu descobri que vão haver audições pro Municipal em dois meses.

- E é claro que você vai.

- Não Beca, você não tá entendendo: Eu não treinei o suficiente e além do mais, vão haver um milhão de outras bailarinas lá e... - Marcela começou a entrar num nível de leve desespero.

- Eu garanto que nenhuma delas é melhor, mais esforçada ou mais bonita e gostosa que essa biscate aqui. - E belisquei o braço dela, que riu e deu a volta na mesinha de centro pra me abraçar. - É o seu sonho, e sim, você vai, e se quiser, eu vou lá com você no dia do teste, me sentir gorda no meio do bando de bailarina anoréxica de canela fina! Combinado?

- Combinado. Agora é a hora que você me conta todas as coisas implícitas naquele "É".

- Eu fiz muitas besteiras ontem, Marcela, mas acho que essa foi a única da qual eu não consigo me arrepender.

- Defina "muitas besteiras" por favor, porque a última coisa da qual eu me lembro é de entregar um convite para um rapaz que não falava com você há quase dois meses.

- Ele levou uma perig... alguém, com ele. Daí você sabe o quão boa eu sou em encubar ciúme.

- Mas você sempre foi boa em encubar ciúme, Beca.

- Não depois de algumas vódegas, duas viradas de tequila e meia garrafa de algo que eu não tenho a menor idéia do que seja até agora revirando no meu estômago.

- Apenas. - Ela riu. - Vá, continue.

E eu resumi a noite inteira pra ela. Pelo menos as partes que eu lembrava.

- Muito madura você. - Marcela falou, nada irônica.

- Eu gosto dele, Marcela. Eu fiquei com ele, porque eu pensei que ele ainda gostava de mim também, e que ele tinha levado ela lá só de pirraça, pra me fazer raiva. Eu dormi com ele, disposta a reparar os danos que eu tinha causado da última vez e nos últimos anos. Se ele quisesse eu topava até namorar e todas essas coisinhas cafonas de datas, e mimos, e tal. Mas ele não quis nada disso.

- Como assim?

- Ele passou a noite comigo de pirraça, pra provar pra si mesmo alguma coisa que eu não entendi. E foi embora assim que acordou, sem nem olhar na minha cara.

- Acho que você descobriu onde liga o modo canalha de um bom rapaz e, infelizmente, foram poucas as que conseguiram achar onde desliga isso.

- Engraçado é que eu nunca sei direito o que eu quero, daí quando eu sei... - Eu ri sem graça, Marcela bagunçou meu cabelo e ligou a tv outra vez.

- Não é engraçado, Beca. Pode parar de tentar se fazer de forte, porque só piora. E se ele continuar filho-da-puta, só vai mostrar o tanto que não te vale a pena, mesmo depois desses anos todos que pareceu merecer.

A campainha tocou.

segunda-feira

Capítulo 13 - Galpão (Parte 5)

Olhei pra ela, na minha frente com os braços cruzados esperando que eu dissesse alguma coisa. Mas eu não sabia o que falar. Eu não fazia a menor ideia do que dizer. Então eu agi.

- Que porra é es...?!

Agarrei a cintura dela até tirar seus pés do chão, e antes que as sinapses inundadas de álcool pudessem causar alguma reação, eu a beijei como se o mundo fosse acabar. Imaginando se o coração do desconhecido da festa disparava louco feito o meu com o beijo dela ou se essa macumba com efeito colateral era só em mim.

Eu beijei Rebeca por horas, que nem fosse um castigo e um presente de natal ao mesmo tempo, como se arrancar um pedaço de mim me deixasse mais forte, num pedido de desculpas desesperado dentro de uma acusação rancorosa de afeto. Amarrando meus braços ao seu redor, enquanto ela ainda tentava esmurrar meus ombros na esperança de se livrar e até depois de se dar por vencida, abraçando minha nuca e envolvendo suas pernas em volta de mim.

E só Deus sabe como foi que eu abri a porta daquele apartamento ou como conseguimos chegar no quarto dela.

Eu só sei que a quis com toda a raiva que eu tive em não poder tê-la, com toda a vontade que eu tive de nunca mais voltar pra ela, eu a quis com a certeza de que tudo mudaria. Bem como suas pupilas dilatadas, a respiração ofegante, o resto quase-nada de juízo e suas unhas vermelhas cravadas nas minhas costas me queriam de volta.

Eu só sei que eu perdi totalmente a noção do tempo, que seus jeans e a minha camisa começaram a se jogar no chão sozinhos, junto com a blusa dela e a minha calça ia tudo tomando o mesmo rumo.

Eu só sei que os dois pares de mãos tinham vida própria, caminhavam juntos pelo fim da madrugada e sem restrição alguma. Que o cheiro, os beijos e o desenho dela iam se guardando em mim e que aquelas mordidas iam deixar marcas. Que o ar parecia rarefeito e a gente fechou as cortinas tentando pausar o nascer do sol, pra ele demorar um pouco mais antes de trazer a realidade de volta. Porque sem dizer uma palavra sequer, era só a gente como devia ter sido desde o começo e mais nada no mundo, por enquanto.

- Você ainda vai me odiar de manhã? - Ela perguntou meio sóbria, meio adormecida, com a cabeça encostada no meu ombro, me abraçando. Eu não respondi.

~

Eu acordei antes. Sem conseguir decidir se feliz ou infelizmente com plena consciência da noite inteira, sem a menor ideia das muitas horas que este domingo já carregava e sem tirar um sorriso bobo da cara. Então eu levantei da minha cama, tentando não fazer barulho ou não provocar um terremoto, vesti minha camiseta gigante do Patolino, sentei na cama de Alice e fiquei mais sei lá quanto tempo calada, olhando ele dormindo todo lindo com a cara amassada no meu travesseiro, decidida a comprar todas as linhas, agulhas, SuperBonders ou caixas de band-aid disponíveis na face da Terra, pra remendar o estrago que eu tinha causado da última vez.

Abri a porta com todo o cuidado do mundo e fui olhar o resto da casa, muito mais silenciosa que o habitual. Alice dormindo no quarto da frente, sem o menor vestígio de Marcela, e Verônica devia estar com Breno no apartamento do lado.

Tomei os bons comprimidos pra ressaca, achei um resto de pizza muito convidativo, com um "Bom café da manhã, fui lá pro João" escrito na caixa, mas mesmo assim resolvi incorporar a moça prendada e fazer umas tapiocas pra comer tomando café, preto, forte e sem açúcar.

Pouco tempo depois, ouvi passos preguiçosos vindo do corredor, e quando eu me virei ele tava lá, encostado no vão da porta sem sorriso torto, ou bom dia sequer.

- Eu fiz tapioca. - Eu disse empurrando um dos pratos pra ele, Bruno continuou me encarando e sem se mover um centímetro. - Me desculpa por ontem.

- Você não me deve desculpas. - Ele falou, empurrando na bancada o prato de volta pra mim. - Melhor eu ir agora.

- Fica aqui, o povo ainda tá dormindo. - Eu ia falando e ele andando em direção à porta. - Eu fiz café e a gente tem muita coisa pra conv...

- Não, Beca. Você não lembra? - Bruno abriu a porta, tirando os olhos de mim.

- Eu só quero saber o que você quer de mim.

- A gente não devia fazer isso.

E foi embora sem olhar pra trás. Usar pra poder jogar fora, era disso que se tratava. E de repente era tudo um jogo sem significado algum. E essa madrugada não tinha sido nada, nada além de uma revanche.

quarta-feira

Capítulo 13 - Galpão (Parte 4)

Segurei a mão dele e saí carregando-o para o emaranhado de gente dançando no meio da pista, procurando o lugar com a melhor vista possível que certa pessoa pudesse ter, obviamente sem parar um segundo sequer com os múltiplos flertes recíprocos. Só aí começamos a dançar. E dançar. E dançar.

Uma eu muito concentrada em não torcer o pé - visto que salto e alcóol nunca me foi lá tão boa combinação, mas ainda assim rebolante como nunca, sob uma daquelas músicas que você conhece sem ter a menor ideia do nome ou quem canta, eu dançava com o menino do nome de uma sílaba só, querendo que fosse Bruno no lugar dele. E cada pedaço do corpo dela que Bruno ia mapeando (vulgo passando a mão mesmo), mais raiva me dava de eu não ter me deixado estar lá ao invés dela, então eu ia me chegando mais perto de Gui, eu ia me chegando mais rebolante, provocando de propósito o olhar raivoso que não parava de queimar minha nuca.

E, como eu não valho sequer o que o gato enterra, comecei a ceder um pouco às investidas do rapaz - com direito à cheiro no cangote, mãos gaiatas passeando sabe-se lá por onde e, claro, a clássica e infalível tática do sorriso maroto mordiscando o lábio inferior, com a plena certeza que o rapaz de sorriso torto e ombros bonitos com a periguete que não era eu estava acompanhando a cena passo-a-passo.

- Tem gente demais aqui, você não acha? - Gui perguntou e eu concordei. - Você não quer sair daqui, dar uma volta, ir pra um lugar mais calmo, só nós dois?

Sente o drama.

- Ér...

Alice estava com Sal, por demais concentrada em toda a sua pegação perto do bar pra conseguir dar voz à minha consciência, que tem esse mau costume de ficar completamente muda quando eu começo a beber. Verônica (que eu só conseguia identificar pelo cabelo e a cor da blusa) num canto mais escuro fazia sabe-se lá o quê com um rapaz cuja cara não dava pra ver, mas provavelmente era Breno, ou seja, eu prometo que nunca mais vou beber se minhas amigas estiverem entretidas o suficiente para não vir me salvar de mim mesma.

Foi quando por um segundo eu olhei de lado, lá estavam os braços dele envolvendo a cintura da garota, beijando-a e deixando pra mim um sorriso em deboche, depois de deixar a boca dela. Daí eu resolvi fingir que tava pouco me fudendo.

- Acho melhor a gente ficar por aqui mesmo, não quero que a minha carona me perca de vista. Então... Você vem sempre aqui? - Daí eu beijei o outro rapaz como se ele fosse o último cara com os dentes da frente na face da terra. Ele me beijou, e eu o beijei de volta com tanta vontade quanto.

Porque Bruno não me queria mais, mas eu queria que fosse ele no lugar desse cara que eu conheci há menos de uma hora. Queria que fosse o meu amigo de infância, com o beijo doce que me protegia, passando a mão pela minha nuca enquanto o tempo passava sem sequer a gente notar, e não um estranho que eu nunca tinha visto da vida até essa noite, cujo único lugar onde ele queria passar a mão era definitivamente baixo demais para ser minha nuca.

Daí eu me dei conta de que tinha feito tudo do jeito errado. Daí eu me afastei de Gui, falando qualquer coisa parecida com um "Vou ao banheiro". Daí eu saí andando de cabeça baixa - morrendo de vergonha de mim mesma, e nunca mais voltei. Daí eu bebi uma carrada de tequila de uma só vez e a última coisa que eu consigo me lembrar é dele invadindo o taxi enquanto eu tentava lembrar do endereço de casa pra dizer pro cara.

~

- Que porra é essa agora?! - Ela disse quando eu abri a merda da porta daquele taxi e entrei sem a menor cerimônia.

- Nós vamos acabar indo pro mesmo lugar, de todo jeito.

- Ah, beleza. - Beca falou, irritada, procurando (sem o menor sucesso) o lugar onde a outra porta do taxi abria.

- O que você tá fazendo? - O taxista fingiu que não tinha me visto invadir o taxi e resolveu tomar como rumo o endereço que Beca havia dado.

- Dando espaço praquela menina que tava com você, obviamente. Você não passou a vida inteira se gabando de ser um gentleman? Gentlemans levam as periguetes que pegam pra casa. A não ser que vocês não tenham conseguido decidir se era na sua casa ou na dela e tenham feito alí mesmo, pra aproveitar o banheiro unissex né?

- Para de falar besteira, Rebeca.

- Por que? Vai dizer que você não queria? Porque do jeito que vocês dois estavam numa encenação quase perfeita de como conceber um novo ser humano alí mesmo na pista de dança...

- Se eu e a Ju estávamos enc... - Beca revirou os olhos e gritou com uma raiva que eu nunca tinha visto:

- DÁ PRA VOCÊ PARAR DE CHAMAR ESSA PERIGUETE ASSIM?!

- E por que ela é uma periguete?

Ela ficou calada, fingindo estar entretida com os prédios que iam passando pelo caminho. Eu continuei:

- Pra mim, agir como uma periguete era aquilo que você tava fazendo com um avulso que não deve saber nem o nom... - Ela me olhou, rangendo os dentes de tal forma que eu imaginei o maxilar dela estalando e se partindo em dois. - Esquece.

- Anda, CONTINUA. - Eu hesitei. - Continua, pode falar o quão vagabunda você pensa que eu sou, eu aguento!

- Beca...

- Não, Bruno. Pode continuar com o seu discurso, tava REALMENTE interessante.

- Você entendeu o que eu quis dizer! Você sabe que tá errada! Aliás, como quase sempre! Nem vem dar uma de vítima pro meu lado, eu não caio mais nessa!

- Pois é, você já pegou a vaga de vítima por aqui, não é "Bruninho"?

- Dá pra você parar de fazer essas alusões grotescas à garota que tava comigo?

- Ah, Bruno, faça-me o favor...

- Ela me trata de um jeito que você nunca nem se deu o trabalho, ela me dá atenção, ela é carinhosa.

- Legal! Ela é a sua princesinha de contos de fadas. O único lugar que tem pra mim é o da vadiazona má que quebrou o seu coraçãozinho! TODOS CHORA.

- Era com ela que eu devia estar agora, e não dentro de um taxi discutindo com uma bêbada que mal sabe o que faz ou fala!

- Beleza, então agora me diz O QUE DIABOS VOCÊ ESTÁ FAZENDO AQUI? Porque definitivamente não fui eu que te chamei.

- Dá pra parar de ser babaca só por um segundo, Rebeca?

- Não. Não dá.

- Eu vim porque fiquei com preguiça de ter que ir te procurar depois, caso você se perdesse por aí. O que não seria coisa muito difícil, vendo o quanto você está bêbada!

- Quer dizer que agora eu preciso de um guarda-costas!

- Não. De uma babá!

Ela se calou. E foi uma eternidade até o taxi parar e eu conseguir falar:

- Rebeca...

Ela não olhou pra mim.

- Eu já estou em casa, já fez a sua boa ação, ganhou uma estrelinha de bom menino, agora por que você não volta pra festa, ou pra sua adorável acompanhante ou só vai se fuder de um vez? - Ela tirou umas notas amassadas de dentro do bolso, dizendo pro taxista: - Pode ficar com o troco, moço. - E saiu abrindo o portão, subindo a escadaria cambaleante.

Eu saí correndo atrás dela.

- Rebeca... - Ela não parou de andar. - Rebeca, deixa de besteira e olha pra mim! - Ela se desequilibrou por um instante, mas não parou de andar. - Rebeca!... REBECA! - Ela respirou o mais fundo que um ser humano é capaz, parou, virou e ficou me encarando.

- O quê?