domingo

Capítulo 6 - Janta é coisa de pobre (Parte 2)

João chegou enquanto ainda estávamos nos arrumando às pressas, todas super atrasadas, ele super pontual. Um doce.

- Boa noite. - Ele falou todo bom moço quando Alice abriu a porta.

- Boa! Entra aí. - Ela falou sorrindo depois voltou pro quarto terminar de se arrumar. João foi entrando sala adentro com seus jeans, sua camisa nerd bonita e seus passos tímidos. Arrumou os óculos e ficou de pé, perto da bancada, segurando uma sacola com uma garrafa dentro.

- Ér.. - Ele começou a falar, envergonhado.

- Marcela tá terminando de se arrumar. - Eu disse, passando o strogonoff muito cheiroso da panela pra travessa usando somente a mão não-esfaqueada, tentando não derramar tudo e acabar com o jantar. - Pode sentar aí em qualquer canto.

- Aquela era a Alice. - Ele supôs, eu sorri e fiz que sim com a cabeça. - Você deve ser a Rebeca.

- Eu mesma. - Eu disse, pondo a travessa sobre a bancada. João olhou pra mim e levantou a sacola.

- E isso aqui, onde eu ponho?

- Ah, me dá aí que eu boto na geladeira. - Peguei a sacola e tirei a garrafa. - Hum, vinho... - Tão nerd educado e bom moço, como eu disse, um doce.

Abro a geladeira e tento arranjar espaço para a educada garrafa de vinho em meio a todas aquelas convidativas garrafinhas de Ice que constavam em nosso estoque pessoal.

- Oi menina... - Ele disse, encantador.

- Oi João. - Marcela falou toda meiga como quase nunca se via. Indiferença, era o que normalmente a definia, mas de alguns tempos (e rapazes) para cá, ela estava ficando mais disposta a prender-se, o que tende a ser bem difícil, uma vez que sua lógica inegável acabava por abstrair qualquer probabilidade de paixões arrebatadoras, romances adocicados ou declarações de amor gritantes. Era bonitinho ver minha amiga tentar.

João sorriu dando um beijo em seu rosto, Marcela sorriu meio envergonhada de eu estar observando a cena fazendo aquela cara de "aaaaaaaaaaaaaawn *~*" estirando-me o dedo médio assim que o bofe desviou o olhar.

Bruno entrou pouco depois, todo lindo numa camiseta que deixava seus ombros mais lindos que o normal, todo fofo no beijo que me deu na mão enfaixada todo cheio de cuidado perguntando se eu já tinha tomado o remédio, todo se querendo quando disse que estava se controlando pra não me agarrar alí na frente de todo mundo e eu me fiz de discreta apenas sorrindo e dando um beijinho na orelha dele antes de dizer que a melhor parte deveria ficar só pra gente, não precisava divulgar. Fez um bico, sorriu deixando o aparelho aparecer, então fomos nos sentar junto com Marcela, João, Breno e Verônica (sendo que os dois últimos estavam numa vibe "Amor I loveYou" que empreguinava todo o resto do ambiente) enquanto Alice ia buscar a câmera lá dentro.

Alguém bateu à porta e dessa vez, eu abri. Mas, porém, contudo, no entanto, todavia, entretanto poderia arranjar mais umas duzentas orações coordenadas sindéticas adversativas como desculpas para não tê-lo feito se soubesse quem estaria atrás dela.

Lá estava ele. Um sorriso torto na cara, o cabelo castanho escuro, quase preto e arrepiado, uma camisa vermelha por cima daquele festival de músculos abençoados por um tom moreno que ai meu Deus do céu o que é que eu estou fazendo..

- Olá... Rebeca, né? - Rouca, grave e perfeita a voz dele invadindo meus tímpanos, desmontando as sílabas do meu nome. Tentei congelar meu rosto de um jeito indiferente, até porque se eu não o fizesse seria perceptível para meio mundo o quanto eu era apenas um pequeno planetinha irrelevante, admirado e girando ao redor do sol que Sal era.

- Arram, oi. - Eu disse. - Er.. Entra.

- Licença... Boa noite. - Sal falou, antes de começar a sorrir feito bobo, como eu queria fazer quando olhava pra ele. Ele sorriu pateta ao ver Alice vindo no corredor. - Boa noite, minha linda.

Minha linda. Imagine um objeto de vidro, não, vidro não. Imagine um objeto de cristal, frágil, delicado e nenhum pouco resistente à abalos. Pronto, um desses acabava de implodir em algum canto entre minha garganta e meu estômago. Alice o olhou, acorrentando a retina de Sal à dela e expulsando qualquer incerteza que eu tinha de que eu havia feito a escolha certa, deu mais dois passos e o abraçou, cheirando o canto do pescoço dele. O que os dois tinham era fim de tarde a semana inteira, não só sábado à noite. Era "I Will Always Love you", não "Crush Crush Crush". Era imóvel, não passageiro. Era "Titanic", não "O Diário da Princesa". Era pra sempre, não pra viagem. Era amor, não só paixão.

Um comentário:

Messias disse...

só está começando, rs