segunda-feira

Capítulo 11 - Tricô Das Mina

Um eu muito desorientado acordou com o sol surgindo na janela e vindo direto na minha cara, uma Beca adormecida com os braços ao meu redor, e um toc toc insistente na porta.

Me livrando dos braços de Beca com o maior cuidado pra não acordá-la, cambaleei ainda sem muita noção das horas até a porta do apartamento e abri me deparando com uma Alice apressada, irritada, sem lá olhar pra quem estava além da porta e com certeza falando muito mais rápido que o normal.

- Bruno, ó, se a Beca aparecer por aqui entrega isso pra ela. - Ela disse, me jogando nas mãos um molho de chaves com chaveiro de borboleta que eu bem conhecia enquanto mexia num monte de papéis da pasta que carregava. - A droga do meu celular não despertou, eu não dormi porra nenhuma, ela não chegou em casa até agora, aliás nenhuma das três chegou, eu tenho (ou tinha) dois trabalhos pra entregar na primeira aul... - Até que bom, finalmente viu que era Beca no sofá e por um segundo eu quis um emoticon da cara que ela fez quando notou que Beca não vestia muita coisa além da minha camisa e começou a gaguejar. - Ér... A-a-até depois. Entrega isso pra ela, tá? Tchau.

E sumiu de vista correndo e gritando quando viu o ônibus passando em frente ao portão da escadaria. Eu ri sozinho, fechando a porta sem - assim como Alice - acreditar lá muito no que havia acontecido ontem à noite. Então eu fui fazer um café pra nós dois, numa tentativa frustrada de parar de ficar olhando pra ela adormecida e linda tão quieta no meu sofá.

Uma bandeija velha que eu achei quase que na alma do armário sobre a pia, as minhas melhores torradas queimadas do mundo, guardanapos, as duas últimas caixinhas de Toddynho da geladeira e uma flor que eu roubei do jardim da vizinhança quando fui comprar pão.

Fiquei com preguiça e um estômago revoltoso de esperá-la acordar, liguei a tv, peguei uma das torradas quase carbonizadas e na falta do que mais ver, deixei em algum programa desses de culinária que costuma passar de manhã.

~

Me espreguicei e esfreguei os olhos por uma eternidade antes de abrí-los e por um acaso notar que eu não estava na minha adorável cama, nem no meu adorável quarto, nem tampouco no adorável apartamento onde ambos ficavam.

Sentei desorientada no sofá e me deparei com o rapaz de cabelos pretos, ombros bonitos e sorriso torto me apontando uma bandeija de café da manhã com uma rosa vermelha num copo de requeijão. Eu cobri o rosto com as mãos.

- A gente não devia fazer isso.

- O quê? Tomar café? - Perguntou Bruno, ainda com aquele sorriso na boca.

- Talvez seja melhor eu ir agora. - Falei, levantando ainda com aquela camisa que só tinha o cheiro dele. Catei minhas chaves e roupas que estavam juntas sobre o balcão.

- Espera Beca, você não vai nem comer a torrad... - Saí antes de mudar de ideia. Saí sem olhar outra vez pra ele, pros ombros, ou pro sorriso dele. Era melhor assim. Era melhor pra nós dois.


Hora do almoço e eu encontro uma Alice com uma cara de quem viu pessoalmente a Baleia de Graciliano Ramos morrer, sentada numa mesa reclusa com Verônica - mais loira que o normal, e Marcela se acabando num sanduíche maior que eu e falando sobre como tinha conseguido achar o caminho da casa de João no breu da noite anterior.

- Boa tarde, sua linda. - Marcela disse, puxando a cadeira vaga entre ela e Alice, mas sem sequer cogitar a possibilidade de soltar o bendito sanduíche.

- Boa... - Respondi, sentando no lugar que me fora apontado, enquanto Raul (o garçom garboso) anotava meu pedido de sempre.

- Que bom que cê chegou, nós duas estamos tentando descobrir o que diabo aconteceu com o terceiro elemento que tanto pensa na morte da bezerra olhando pro nada desde que chegamos aqui. - Falou Verônica, apontando pra Alice entre as garfadas de salada.

- Nossas apostas estão entre "ter descoberto que o tal Sal não tinha lá esse tempero todo no escuro" e "moreno, alto, bonito e sensual que afanou toda sua alegria numa noite louca de amor nas garras da escuridão", obviamente a segunda aposta é minha.

- Ai Marcela, coitada. Deixa a menina falar. - Eu disse dando um tapa no ombro dela - Que foi que aconteceu ontem, Alice?

Ela deu de ombros e continuou jogando a comida prum lado e pro outro antes de sorrir pra mim com um olhar todo malicioso que normalmene era meu.

- Minha noite não deve ter sido tão boa quanto a sua, não é dona Beca?

- O encontro com o Bruno! - Marcela lembrou.

- Opa, peraí que eu acho que eu tô por fora dessa. Que foi que aconteceu, Rebeca? - Falou Verônica e levando minhas mãos ao rosto me afoguei no poço vermelho de vergonha que era a minha cara neste momento.

- AH MEU DEUS. - A burra da Marcela, manifestada a ponto de soltar o sanduíche. - É sério que é o que eu tô pensando?!

Ainda com as mãos no rosto, fiz que sim com a cabeça antes de tacar, voluntariamente, a testa na mesa.

- MENTIRA! - Ao mesmo tempo, Verônica e Marcela.

- Bom que eu fui deixar as chaves com o Bruno de manhã, porque pensei, sei lá o que eu pensei, quando eu olho, tá a Beca, dormindo no sofá com a camisa dele.

- Mas e aí, Beca, como foi?! - Verônica perguntou, enquanto Raul (o garçom garboso) me vinha deixar o sanduíche natureba de segunda-feira.

- Ai gente, eu não vou falar sobre isso. - Falei abocanhando o sanduíche - Não aqui pelo menos.

- Okay, beleza. Noite das garotas hoje então?! - Propôs Marcela. - Sem rapazes, pra gente poder botar os babados em dia. Eu faço o jantar.

- Por mim tá ótimo. - Alice respondeu, seguida por Verônica e eu idem.

- Pelo menos assim a Alice pode nos contar por que diabos essa cara de enterro está em sua poker face. - Falei, dando outra dentada naquela coisa maravilhosa de frango e cenoura.

quinta-feira

Capítulo 10 - B&B (Parte 3)

Abri a porta e entrei quando vi que ele vinha. Eu estava muito bem sentada, de pernas cruzadas no balcão da cozinha. Bruno abriu a porta e me procurou por alguns instantes.

- Posso saber o que você tá fazendo aí em cima? - Ele perguntou, quando deu por mim.

- Bom, você me perguntou se ainda faltava alguma coisa para uma noite perfeita, não foi?

Ele concordou, enquanto eu o puxava pela camisa mais pra perto de mim. Puxando até - nem tão por acaso assim - tirá-la.

- Eu só queria morder seu ombro. - Falei fazendo caminho com o nariz pelo desenho daquele horizonte que vinha do pescoço aos ombros dele. - Sentir esse cheiro bom no seu pescoço e, principalmente, o gosto, que tanto me assusta, da sua boca na minha... - Fui bem perto da orelha dele e perguntei: - Eu ainda preciso falar mais alguma coisa?

- Não, não... Não fala mais nada. - Ele disse antes de me segurar por alguns segundos fora do chão sem tirar minha boca da dele.

Minhas unhas vermelhas. A cidade sem luz. O sorriso torto e safado. Um apartamento vazio. Ombros à mostra. Meu juízo e a camisa dele jogados pelo chão de madeira.

Eu nunca havia visto um vestido ir embora tão rápido, eu nunca vi um sofá tão convidativo, eu nunca vi um escuro tão confortável como no calor daquele momento sem luz mas mesmo assim tão radiante. Eram dedos demais, línguas e cheiros demais, mãos demais, reboladas demais à medida que as roupas, o ar e a vergonha na cara iam ficando de menos.

Mas foi só quando ele resolveu parar e procurar a própria carteira nos jeans que estavam perdidos no escuro que eu resolvi notar onde diabo isso ia chegar. Foi aí que minhas mãos começaram a formigar assim como a ânsia de vomitar tudo o que eu não havia comido hoje. Eu - como a sempre bocó que sou - tinha de perguntar:

- P-posso sab-ber - pigarro nervoso - Posso saber o que é que você tá procurando? - É claro que eu sabia o que era que ele estava procurando na bendita carteira, só queria uma tentativa frustrada de acordar numa realidade aleatória onde eu deveria estar sonhando isso. Minhas mãos formigaram ainda mais quando ele respondeu:

- Eu achei melhor deixar por perto. Só isso. Não se preocupe. A gente não vai fazer nada que você não queira. - Era justamente o problema, eu não queira não-fazer nada. Só que pra não não-fazer nada, eu ia ter de fazer alguma coisa. Logo meus pés começaram a tremer loucamente.

Ele voltou pro sofá todo manso, deixou aquilo em cima da mesinha de centro, voltou pra perto de mim, deitou no meu colo e me abraçou.

- Você tá tremendo. - Bruno observou sorrindo. - Não precisa disso não, menina. Pode ficar calma.

- Eu estou calma. - Mentira. - Eu to super calma. - Mentira. - Eu estou calmíssima, Bruno.

- Você fica linda até mentindo. - Ele sorriu outra vez, me beijou e minhas mãos pararam de formigar à medida que eu senti vontade de ficar alí com ele e a cueca vermelha dele pelo resto da minha vida. Na verdade, eu imaginei que ficaria muito bem ali pelo resto da minha vida mesmo sem a cuequinha vermelha.

Então envolvida pelos beijos e braços, o enroscar de mãos, pernas, o cheiro quase macabro de tão bom que era o da nuca dele, aquela coisa seminua naquele recinto sem luz. Eu resolvi tentar. E depois de resolver dar um passo à frente, ficou tarde demais quando eu cogitei a possibilidade de voltar os dois pés pra trás.

Ele ficava sussurrando na minha orelha coisas carinhosas, doces e cuidadosas nas quais eu não prestava a menor atenção, posto que continuava muito bem concentrada em não ter a menor ideia do que eu estava fazendo. Era bom, estranhamente bom. Mas, puta que pariu, que dor. Até entrar numa certa dimensão onde você perde a noção do tempo, mas a de espaço continua intacta, principalmente a de que o seu espaço é realmente pequeno para tamanha equação. - Só eu mesma pra conseguir pensar em física uma hora dessas, aliás, pensar em um milhão de coisas ao mesmo tempo.

A única coisa mais rápida que meus pensamentos era meu coração desesperado querendo escalar minha garganta e sair goela afora enquanto eu ficava a observar a linha dos ombros e a cara engraçada - contudo, absurdamente mais linda que o normal, e cada músculo e arrepio, dele e nele, sorrindo torto pra mim no escuro. Eu não consegui deixar de sorrir de volta, nem de implorar mentalmente praquela dor desgraçada passar, pra ficar só a parte boa e pra que eu não estivesse fazendo (nem que saísse) nada de errado.


E por um instante, quando ele simplesmente me guardou num abraço e me beijou as mãos, eu pensei que pudesse amar Bruno enquanto eu pudesse estar viva, com direito a enviar convites com os nossos nomes impressos em tons de prata pra casar de branco e envelhecer juntinho, como naquele abraço desajeitado e fofo, pra nunca mais ter frio e saber como gastar o calor, pra nunca ser pra mais ninguém além dele, pra ele nunca ser de mais ninguém, só meu. Pras nossas linhas se cruzarem, nossos trapinhos se juntarem, e pra nós dois aguentarmos o que quer que fosse.

E até quando o instante passou, mesmo sendo um quase não, ainda era amor. Não era muito mais que um farrapo, uma fagulha de amor. Era só um pouquinho de quase nada, mas eu sei que era.

~

Foi quando ela adormeceu nos meus braços e eu fechei os olhos, querendo que ela não me fosse embora nunca mais. Enquanto eu estivesse vivo, com direito a me deixar esperando vinte minutos no altar pra botar o sobrenome do meu pai no fim do nome dela, pra gente ficar velhinho segurando a mão no escuro, pra tomar cuidado dela, pra viver com e pra ela, pra não ser de mais ninguém além dela, pra não deixar ela ser de mais ninguém além de mim. Pras nossas linhas se cruzarem, nossos destinos se juntarem, pra que eu conseguisse conquistá-la, enfrentando o que quer que fosse, e pra que eu pudesse escrever "B&B"*em cada muro que me visse passar pensando nela.

Eu não consegui dormir. Preferi ficar sonhando acordado, com a mulher dos meus sonhos dormindo no meu sofá, nos meus braços, até amanhecer.


*B&B = Bruno e Beca.

sexta-feira

Capítulo 10 - B&B (Parte 2)

- Espera um segundo, esqueci de uma coisinha. - Pedi, empurrando Bruno que caiu ao lado de Alice no sofá, voltei correndo no quarto, abri a terceira do meu criado-mudo, estava dentro da caixinha de música que muito me preocupei em afanar daquela casa medonha. Só peguei e botei dentro da bolsinha na minha mão e fechei tudo. A campainha tocou assim que eu pus o pé no corredor outra vez.

Alice andou até a porta, arrumou a franja pro lado, ensaiou um sorriso meigo e abriu a porta pra ele, cujo sorriso em resposta ao dela invadiu a sala, corroendo todo o ar que eu devia estar usando pra respirar. Bruno segurou minha mão. Daí as luzes se apagaram e eu segurei a mão dele de volta.

Faltou energia.

- Parece que foi no bairro todo. - Sal observou pela porta que ainda estava aberta em meio ao breu.

Meus olhos começavam a se ajustar pouco a pouco à falta de luz.

- Acho que as velas estão guardadas por aqui. - Alice disse tateando o caminho atrás do balcão da cozinha. - Merda. Emprestei minha lanterna pra Verônica levar na viagem.

- A minha eu escondi pro Breno não levar. Tá guardada, lá em casa. - Bruno levantou, soltando da minha mão. - Vou lá buscar.

- Ei, espera. - Ele virou pra mim. - A gente ainda vai sair? - Bruno deu de ombros num sorriso frustrado. - Então deixa eu ir com você. Acho que eu vou ficar sobrando aqui. - Alice acendeu a vela e veio trazendo ela pra mesinha de centro da sala, totalmente corada com a minha observação, Sal não prestou atenção, apenas sentou ao lado dela.

- Juízo, viu? - Nós duas dissemos ao mesmo tempo. Eu ri, Bruno puxou minha mão me beijando o rosto, dei tchauzinho pros dois e fechei a porta, jurando que a mão dele segurando a minha ia nos levar ao apartamento ao lado. Mas não.

Como se eu já estivesse vendo muita coisa, assim que eu botei o pé fora de casa, as duas mãos dele fecharam meus olhos e foram me guiando pro outro lado.

- Pra onde nós estamos indo? - Perguntei curiosa. Eu o ouvi rir, tirando as mãos dos meus olhos.

- Você lembra da última vez que viu as estrelas assim?

Eu não sei explicar. Havia milhões de pontinhos cintilantes por toda a extensão da noite, um espetáculo no escuro. Eu nunca as tinha visto alí, tão por perto, um mar de estrelas pedindo pra serem vistas. Quase uma hora foi embora até eu conseguir falar alguma coisa.

- Parece até que elas estavam adivinhando que ia faltar luz, e se arrumaram só pra gente se perder olhando. - Eu disse, sentada na escadaria. Bruno tinha sentado do meu lado, encostando a cabeça no meu ombro.

- Queria ter adivinhado também. Só que como meus planos estão eternamente fadados a não darem certo... - Ele falou, com os olhos saindo do céu e indo pro chão. - Eu só queria uma noite perfeita... Consegui uma vaga pra nós dois jantarmos no restaurante mais caro da cidade, eu até peguei o outro carro do meu , o mais bonito, depois a gente ia... Deixa pra lá. Pelo visto a luz não vai voltar tão cedo... Eu só queria que fosse uma noite importante...

- Ei. - Eu disse sorrindo, levantando o queixo dele para que ele olhasse nos meus olhos. - Você sabe que eu nunca liguei pra essas coisas caras e granfinas. Eu ligo pra gente, nós dois. Eu aqui, você tá aqui e, ... Olha só esse céu! Tem certeza que precisa de mais alguma coisa ainda pra deixar essa noite maravilhosa? Só porque não tem luz não quer dizer que a noite não possa ser perfeita.

Ele continuou me olhando, como se tivessem maquininhas trabalhando na cabeça dele.

- Que foi? Eu falei alguma coisa errada? - Perguntei.

- Sim. Ainda acho que ainda falta alguma coisa.

- Eu posso pelo menos saber o que é?

Bruno sorriu e tateou a própria calça, procurando sabe lá Deus o quê. Tirou de dentro do bolso o celular, apertou algumas teclas aleatórias e aumentou o volume. Então ele disse, pondo o celular no vão da primeira janela fechada alí perto e me levantou:

- Só um bolero meio R&B pra gente dançar juntinho... De rosto colado, pra sentir seu coração bater assim, no ritmo do meu - Ele me levou mais pra perto, me ganhando na dança dele - e os dois no ritmo da música, pra gente rir das bobagens que você diz achando que fez alguma coisa errada e das vezes que você for pisando no meu pé.

Eu sorri toda boba com o jeito dele falando. Nós dançamos no escuro por mais um tempo até mesmo depois que a música acabou. Foi quando ele sussurrou na minha orelha, perguntando:

- Acha que ainda tá faltando alguma coisa? - Eu ri, mordi o canto da boca e sorri levantando a sobrancelha. Sem falar nada, parei de dançar, peguei o celular no vão da janela fechada e saí andando pro apartamento ao lado.

- Você vai vir? - Perguntei quando percebi que ele ainda estava lá parado de pé na escadaria, bobo e lindo com o jeito da minha resposta quieta.

sábado

Capítulo 10 - B&B

Eu não vou mentir e dizer que foi libertador chegar em casa depois de tudo. Deveria ser, mas não foi. Uma vez que girei a maçaneta com Bruno a tiracolo me enchendo de mimos. Mas *ta-da* lá estavam os dois, se pegando, no sofá. Não passava muito das quatro da tarde de um sábado nublado, aqueles com cheiro de chuva que não favorecem deixar a preguiça de um colo bom de lado. Eu baixei o olhar constrangido, me desconsertava ver o quanto os dois eram tão irritantemente perfeitos um pro outro. Dois pigarros, o casal voltou ao mundo real, Alice correu pra me abraçar:

- Onde você se meteu, desgraçada?! - ela disse me puxando a orelha. - Eu te procurei em toda parte! Fiquei preocupada... Me desculpe, por favor, eu não devia ter te levado pra lá.

- Foi um favor que você me fez, não precisa de desculpa nenhuma... Fez boa viagem?

- Aham. O Sal foi me buscar na rodoviária. - Ela disse apontando pro moreno sentado no sofá com um sorriso lindo e cheio de pena de mim, e Alice também. Ela tinha contado o que aconteceu, certeza. Quase no nível da indiferença, a pena é um dos sentimentos mais desgraçados que pode se ter por alguém que se importa com você. Me deixava pequena, menor do que eu já era. Pena me dava medo, me fazia mal, me causava raiva. Mas ninguem sente pena por mal, então eu não podia me cobrir de ironias com respostas ignorantes àqueles olhos voltados cálidos e piedosos pesando sobre mim. Eu fiquei calada e só sorri e fui andando até o meu quarto.

Bruno me seguiu carregando minha mochila, deixou-a sobre a minha cama. Me distraí com a janela. Ele segurou os dedos dele entre os meus e sussurrou na minha orelha não mais distraída:

- Imagino que não tenha nada programado pra esta noite além de assistir Ghost com sorvete de cajá, chorando por qualquer coisa que não seja o filme, imaginando o que aqueles dois alí estariam fazendo se a gente não tivesse chegado, imaginando como seria estar no lugar dela, imaginando como seria falar com a sua mãe sobre isso, até partir do suco de cajá pra vodka. Me corrija se não estiver certo?

Eu levantei a sobrancelha sem corrigí-lo. Ele riu.

- Você anda fazendo muitos desses cursos de "Como ser um X-Men" pela internet, não anda?

- Não ultimamente... Mas todos os testes que eu fiz tinham uma alta percentagem entre Jean Grey e Professor Xavier, posso me considerar um licenciado para exercer a profissão. - Eu ri. - Finalmente!

- Finalmente? - Perguntei confusa.

- É o primeiro sorriso sincero que vejo no seu rosto em um bom tempo. - Eu sorri pro chão, e baguncei meu cabelo. Era verdade, o pior é que era tudo verdade.

- É, você está parcialmente certo. Só errou o filme. Hoje eu ia assistir Um Príncipe em Minha Vida. - Sentei na ponta da cama e Bruno deitou na cama de Alice olhando pra mim. - Sou tão obvia assim?

- Você não, seu sorriso é. Aquele que você dá quando finge estar bem, é quase da minha natureza interromper a sua performance. É por isso que eu...

- Quer sair comigo hoje? - Perguntei num impulso ponderado, Bruno recebeu o convite como alguém que leva um chute no estômago enquanto dorme.

- Sair? Tipo, "sair"?

- É. Tipo um encontro. Quer?

- Um encontro. Eu e você. Nós dois. Num encontro... - Ele parou quase um minuto assimilando a ideia. - É isso ou te fazer companhia assistindo um filme sobre uma estudante de medicina e o príncipe da Dinamarca. - Eu sorri de novo. - Mas dessa vez eu escolho o lugar, ok?

- Juro que não vou flertar com o músico dessa vez. Palavra de escoteira. - Falei levantando os dois dedinhos.

- Rebeca - Ele me olhou sério - você nunca foi escoteira.

- O que vale é a intenção, não é? - Eu disse revirando os olhos.

Bruno sorriu torto, levantou da cama de Alice, beijou minha testa, bagunçou meu cabelo, andou até a porta e parou por alguns segundos.

- Bruno. - Ele puxou a porta, mas voltou a olhar pra mim.

- Oi.

- Eu também tenho uma condição.

- Qual?

- Me prometa que não vai ser mais indiferente. - Ele concordou com a cabeça. Virou de costas, puxando a porta de novo. - Bruno.

- Oi.

- Obrigada por me achar e me trazer de volta.

- Não foi um favor, Beca. Não precisa agradecer. - Ele falou sorrindo, e saiu.

~

Três toques na porta, um berro na campainha. Alice atendeu, eu entrei, sentei no sofá e assisti umas duas partes da novela ainda, enquanto esperava. Até que eu senti duas mãos perfumadas (e frias devido ao tempo) deitarem sobre os meus olhos.

- Cinquenta centavos como você não adivinha quem é. - Eu sorri.

- Marcela, eu passei mais da metade da minha vida te dando o mesmo perfume de aniversário todos os anos, tem certeza que quer perder cinquenta centavos, fácil assim? - Ela riu e me deu um beijinho na bochecha . - Tá toda bonita e cheirosa, Joãozinho vai se dar bem hoje.

Fez uma careta me dando um tapa no braço mais próximo dela, ajeitou os cachos e depois sorriu indo até a porta. Mas antes que Marcela saísse, ouvi passos no vão do corredor, me virei e sorri, me senti com seis anos outra vez, com meu coração batendo loucamente ridículo, como na primeira vez que eu a vi. Linda era pouco pra Beca, era quase nada se fosse comparar com ela - E eu nem estou falando do vestido curto e quieto ou da maquiagem discreta.

- Enxuga a baba, Bruno! - Marcela falou.

- Não vai sair hoje, Alice? - Beca perguntou, enquanto colocava o brinco que faltava na orelha direita, vindo na minha direção.

- Não, não. O Sal que vai vir pra cá hoje à noite. - As três se olharam de um jeito estranho e riram de alguma piada que eu não entendi.

- Tchau meninas. Só volto amanhã! - Marcela disse, dando uma piscadela indiscreta pra Alice, saindo e fechando a porta antes de ouvir o "Cuidado, sua louca!" das outras duas que continuavam em casa. Só duas, posto que Verônica (e Breno) haviam viajado ainda ontem.

Então Beca me olhou. E de repente ela era o imã mais poderoso do mundo, enquanto eu era só um metal qualquer. Ela veio até mim e eu sussurrei na orelha dela:

- Anda, a noite nem começou.

Capítulo 9 - Escadas (Parte 4)

Não tinha a menor idéia de que horas eram, mas estava amanhecendo por trás dos prédios no horizonte. O "esconderijo secreto" continuava o mesmo, seguro e parado no tempo a ponto de fazer eu me sentir com uns nove anos outra vez, principalmente depois de vê-la deitada alí. Eu ri sozinho, e me aproximei tentando não fazer barulho com medo de acordá-la.

- Alice, como você me ach..? - Beca disse, sem tirar os olhos daquela vista perfeita, e eu sem conseguir tirar os olhos dela.

- Não é a Alice. - Ela levantou rápida, assustada e tensa, eu ri. - Calma, sou só eu.

- Bruno?! O que você tá fazendo aqui? Como adivinhou..?

- Alice me ligou preocupada quando você saiu correndo e não te achava em lugar nenhum, nem ninguem na rodoviaria havia te visto pegar um ônibus. Então eu peguei o carro e vim direto pra cá... Ou você acha que eu esqueceria a nossa casinha avulsa, abandonada na melhor vista dessa cidade que você apelidou de "esconderijo secreto" quando a gente tinha, sei lá, nove anos? - Ela sorriu, voltando a olhar para o nada. Sem maquiagem alguma, com os olhos inchados, devia ter passado a noite inteira chorando.

- Por que você não senta aqui? - Não precisei que ela pedisse duas vezes. - Eu senti tanta falta desse lugar...

Os olhos dela, negros e indecifráveis, continuavam cheios d'água, sempre olhando para o nada, e eu morrendo por dentro sem saber o que se passava naquele mundo obscuro pro resto do universo. Sentei ao lado dela, deixei que ela segurasse minha mão e deitasse a cabeça no meu ombro.

- Senti falta de você, sabe. - Ela continuou a falar. - Eu quis arrancar sua mão da dela, porque por alguma razão insana na minha cabeça, era a minha mão que deveria segurar a sua, e mesmo a gente não sendo nada um do outro, era uma tortura mental imaginar você beijando ela pelo mesmo motivo, porque era a minha boca que devia estar na sua. Isso me assusta. - Ela me deu um sorriso e mexeu no cabelo. - Me proteger sempre foi uma opção mais fácil do que me deixar sentir qualquer coisa. Porque eu cresci com a indiferença e me acostumei com ela. Tipo aquilo de usar um sapato que machuca, só que usando o tempo suficiente, uma hora ele acaba parando de incomodar. Até chega você e me aperta o sapato num lugar que nunca tinha doído antes, fazendo com que eu me perguntasse se eu nunca sentia nada porque não queria, por não ser capaz ou só porque não era você.

Ela continuava sem olhar pra mim, deixando as lágrimas riscarem o desenho do rosto dela, uma a uma, contornando a covinha do lado direito quando ela sorriu sem humor outra vez.

- Se eu disser que tenho uma vaga ideia disso tudo acontecendo aqui, é mentira... - Ela disse, apontando para a própria cabeça em desânimo - Eu estou uma bagunça, eu sou um desastre, Bruno.

- Você é linda, mas é mais que isso. Você sorri suas tristezas com um ar de quem mente pra si mesma, fingindo pro mundo que tá bem. Uma carência sem tamanho escondida em toda essa força que você carrega como uma armadura. Vendo você querer tanto bem à Alice, se privando do que poderia finalmente te fazer feliz. - Ela me olhou, então fechou os olhos e apertou o rosto no meu ombro. - Não é muito comum achar alguem com a sua sinceridade mentirosa, é paradoxal, mas você sempre é, sem se tornar contraditória. E nunca dá pra saber o que diabos você tá pensando porque quando eu tento olhar nos seus olhos eu me distraio no tanto que eles são lindos, deixando tudo ao meu redor desaparecer e eu poderia ficar olhando eles por dias... Eu te conheço e te quero pra mim, mais do que imagina, provavelmente, mais do que você gostaria. Não adianta você vir dizer que desistiu de mim, nem nada do tipo, porque de todos os desastres que eu podia no mundo, eu escolhi você.

Beca apertou minha mão na dela.

- Não se preocupe não, menina. Eu não vou soltar enquanto você puder mantê-la sustentada aí. - Ela sorriu diferente desta vez, passou a mão pelo meu rosto e bagunçou meu cabelo, eu sorri de volta pra ela, levantei e a puxei, fazendo Beca levantar pra caber no meu abraço. - A Alice foi indo na frente de ônibus. Anda, vamos voltar pra casa.

quarta-feira

Capítulo 9 - Escadas (Parte 3)

Decoramos toda a casa e eu sentei no primeiro batente depois de um belo e abençoado banho - posto que praticamente desfaleci de suor e falta de ar de tanto encher os balões cor-de-rosa que estavam espalhados por todos os cantos. Isa não parava de babar em cima do vestido que eu tinha dado para que ela usasse no aniversário. Di pondo as velas sobre as calóricas camadas de chocolate na cobertura do bolo e Alice pondo o granulado nos brigadeiros quando a campainha tocou pouco depois das cinco da tarde.

Di me olhou amedrontada, Alice engoliu no seco, eu tremi com um medo que eu nunca imaginei sentir. E Isa, bom, Isa foi abrir com um sorriso de orelha à orelha e seu vestido novo, a porta sem sequer notar toda a tensão, mas graças ao bom Deus eram só duas ou três amiguinhas (não me dei o traballho de contar) que tinham se adiantado.

- Sinceramente eu não tenho a menor idéia do que eu tô fazendo aqui. - Falei pra Alice, sentando ao lado dela, enquanto chegavam mais e mais amiguinhos. - Ela vai chegar a qualquer minuto, e vai me expulsar à vassouradas.

- Você está aqui porque você estava com saudades, e porque é o aniversário da sua irmãzinha. Escândalo a gente sabe que ela não vai fazer, ela não vai acabar com a festa da Isa. Fica calma e pára de comer os brigadeiros!

- Por via das dúvidas, eu vou logo lá em cima trazer as malas pra baixo pra não parecer que a gente dormiu aqui, aproveitando que já tá tudo arrumado lá em cima. - Afanei mais um brigadeiro pronto, levantei da cadeira e comecei a subir as escadas, quando:

- Eu não vou perguntar o que você está fazendo aqui. - Um arrepio ruim andou por toda a minha espinha dorsal e tomou conta de toda a minha alma. Eu ainda estava de costas, não consegui me virar. - Não sei quem te convidou e prefiro continuar não sabendo. Quando acabar o aniversário da minha filha, você por favor pegue suas coisas e volte pro lugar que você está vivendo seja lá onde for.

Eu respirei o mais fundo que consegui descer. Dei meia volta. Lá estava ela, ainda a mulher mais linda do mundo, parada e me olhando com seu típico ar superior como se tivesse algo fedendo por perto.

- Tudo bem, dona Sônia, a senhora não precisa se preocupar. Assim que acabar eu vou embora, vou continuar sem estragar sua vida perfeita com a sua família perfeita. - E reuni todo o sarcasmo e ironia existentes no meu lado negro num sorriso alegre.

- Como queira, eu só não quero você aqui. - Minha mãe se deu o trabalho de me dispensar um sorriso educado e saiu do meu campo de visão sem se importar, jogando na minha cara a pior espécie de essência destrutiva que se pode direcionar a alguém: o desprezo, mais conhecido por alguns como indiferença. Sutil e apático modo de jogar alguem no chão, chutar suas costelas, cuspir diretamente no seu rosto e sair como se nada tivesse acontecido.

Servi refrigerantes, salgadinhos e brigadeiros - derrubando boa parte deles, obviamente. Fui pedida em casamento por um lindo garotinho entre sete ou oito anos de idade. Corri e vomitei no banheiro uma ou duas vezes, quando encontrava o olhar não-arrependido da minha mãe, me achando a mais tapada criatura do mundo por ter tido a esperança que seria diferente. Ele, o marido dela, por acaso também estava lá, imundo por dentro porém impecavelmente vestido com uma de suas camisas cafonas que não combinava com a calça igualmente horrorosa.

Praticamente todo mundo já tinha ido embora. Eu, Alice e Di tentávamos juntar o lixo e arrumar a bagunça deixada na sala, Isa tinha adormecido no seu quarto em cima dos presentes espalhados pela cama.

- Eu não entendo a dificuldade desses pirralhos de acertar a porcaria do papel no cesto de lixo. - Alice disse enquanto varria.

- Eu me faço a mesma pergunta desde que me entendo por gente, acredite Lice. - Nós três rimos. - Beca, você pode ir lá na cozinha buscar a pá? - Concordei e fui atravessando o corredor quando ouvi aquela voz que me causava tanto nojo discutindo com minha mãe.

-... E pelo amor de Deus, o que é que ela está fazendo aqui? Pensei que tinha deixado bem claro pra você, Sônia. Esta sua filha não vale nada, eu não a quero perto da minha menininha, nem ela, nem suas amigas igualmente devassas. A gente não sabe nem o que diabo ela anda fazendo por lá!

- Isa chamou ela, eu não pude fazer nada. Eu não queria ela aqui tanto quanto você. Até mais se possível. Isa é minha filha, nossa filha. Eu não tenho nenhuma outra. - Ainda era a mulher mais bonita do mundo ali, mas desde muito tempo eu não fazia a menor ideia de quem ela era.

- Então por quê não a mandou embora de uma vez? - Ele perguntou inquisidor em todo o seu ar de superioridade, olhando para sua mulher submissa e desprezível que não sabia o que lhe dar em resposta. Eu não resisti.

- É, dona Sônia. Por que não mandou embora a piranha exilada da família assim que a viu? Ah, é mesmo, que absurdo para a alta sociedade na vizinhança, um escândalo a periguete ser expulsa pela segunda vez de casa justamente na festinha de aniversário da princesinha da casa.

- RETIRE-SE DAQUI IMEDIATAMENTE! RETIRE-SE DA MINHA CASA! - Ele gritou cuspindo. Eu rangia os dentes sem conseguir medir o ódio que se apossava de mim quando Alice e Di correram para a cozinha.

- Vamos embora daqui, Beca. Já chega. - Alice sussurrou na minha orelha segurando o meu braço. - Foi uma péssima idéia, me desculpe.

- Beca, não vale a pena. - Di falou como se por um acaso eu fosse prestar atenção, soltei Alice do meu braço e continuei.

- Sinto muito, Sr. Sou-Adultero-Prepotente-e-Espanco-Minha-Querida-Esposa-Por-Plena-Diversão, até onde eu sei a escritura desta bela casa ainda é no nome da minha adorável ex-mãe, se alguém pode me expulsar (outra vez) daqui, é ela. - Ele pegou o celular e discou um numero de três digitos rapidamente, levando o aparelho à orelha. - Se quiser chamar a polícia, eu tô de boa. Mas é uma cidadezinha pequena, as pessoas comentam, não ia ficar bem pra vocês dois nas colunas sociais, além do mais eles iam AMAR ver todas as provas de agressão doméstica que eu guardei esse tempo todo, não é mesmo?! SEU RIDICULO. - Ele desligou quase que automaticamente, sua cara de cavalo quase roxa de tanta raiva pulsante nas têmporas.

- Anda Beca, vamos sair daqui. Por favor!

- Alice, eu não vou sair daqui antes de dizer tudo que tá aqui engasgado!

- Quem você pensa que é pra chegar aqui achando que pode falar o que quiser?! - Ela finalmente resolveu se manifestar, andando até mim. - VOCÊ NÃO É NINGUEM PARA NÓS. VOCÊ NÃO É NADA PARA MIM.

- Que bom que pelo menos neste quesito nós estamos em pé de igualdade, não é mamãezinha querida? - Eu senti pela segunda vez a raiva, a mágoa e a ignorância esquentarem o meu rosto, sob a mão dela, em mais um tabefe. Mas ao contrário da outra vez, eu não hesitei. Andei ainda mais pra perto, até meu nariz ficar a dois dedos do dela, com toda a coragem que eu não tinha em mim, um coração acelerado a ponto de doer fisicamente, uma bochecha ardendo, pernas e mãos tremendo loucamente. Mas eu PRECISAVA falar tudo. - Pouco me importa o que você acha ou deixa de achar de mim, mas quer saber qual é o meu maior orgulho? Eu nunca vou me deixar ser igual a você. Porque eu não preciso da opinião alheia para ser feliz, ou melhor, pra encenar uma felicidade inexistente. Eu aprendi que eu não preciso me humilhar para um homem DEPLORÁVEL pra me sentir mulher. Eu não preciso fingir que as pessoas são descartáveis. Eu não preciso depender de ninguém. Aliás, eu tenho vivido muito bem se é do seu interesse saber. Sou a melhor da minha turma na universidade, tenho me sustentado bem, até arrumei um emprego. Porque mulheres DECENTES vão atrás do seu próprio sustento, e não deixando sua liberdade de viver pra ser subordinada a um desgraçado desses a vida toda, abrindo mão da felicidade ou até mesmo de uma filha pra fazer as vontades dele. Sabe mãe, eu tenho morado com a minha família, só que eu aprendi uma coisa: Família não é aquela em que a gente nasce por acaso (porque se fosse isso, eu estaria bem ferrada), nem mesmo são os que escolhemos (porque somos humanos e podemos escolher as pessoas erradas com o nosso julgamento imperfeito). Família mesmo são aquelas pessoas que nos escolhem, e não nos deixariam sozinhos no mundo de forma alguma, e só Deus sabe o quão agradecida eu sou por terem me encontrado antes que eu ficasse a à mercê de, ou me tornasse, alguém como você. Até nunca mais, Dona Sônia.

Saí da cozinha, passei pelo corredor, sem esperar Alice peguei minha mochila, e sai correndo de pés descalços pela rua deserta, com as mãos ainda tremendo, os pés formigando, o choro travado na garganta, porém antes de todos esses e principalmente: com a alma lavada.

domingo

Capítulo 9 - Escadas (Parte 2)

Saudade era pouco quando eu procurei uma palavra pra definir o que eu senti, depois do jantar, ao ver Di cobrir uma Isa que dormia numa paz tão doce, dar um beijo de boa noite na testa dela, depois de carregá-la até a cama. Era o que ela fazia quando cuidava de mim, tanto tempo atrás. Uma eu preguiçosa costumava fingir estar dormindo só pra ela me trazer no colo.

Ela me pegou olhando do vão da porta rosa, perdida em todas aquelas memórias de quando eu ainda me sentia da família, tentando prender o choro, mas uma lágrima traiu o movimento e caiu, suicida e solitária, escorregando no meu rosto. Di olhou pra mim como quando eu era criança, me danava no chão e esfolava o joelho, mas me fazia de forte engolindo o choro enquanto ela passava Merthiolate nas minhas perebas.

Não precisávamos de palavra alguma, ela me abraçou e eu chorei a saudade, o joelho esfolado, chorei o tempo chuvoso do lado de fora fazendo barulho na janela, a amizade, a distância, chorei Sal, Bruno, chorei a indiferença que tanto me fazia implodir, só que sem precisar me esconder como fazia pra boa parte do mundo. Eu inundei o ombro dela, chorando todas aquelas mágoas, lembranças e - nem mesmo por um segundo, ela soltou do abraço, exatamente como antes. Eu sabia que não precisava ter vergonha de chorar do lado dela, Di não era como o resto do mundo, ela era um pedaço de mim.

Eu ri enxugando as lágrimas, ela sorriu balançando a cabeça, com tanta saudade nos olhos - imensamente castanhos - quanto tinham nos meus.

- Eu sinto tanta falta.. Ela deve sentir também, Beca.

Eu dei de ombros e continuei rindo sem motivo algum, ela beijou minha testa, e saiu andando pelo corredor de paredes em azul tão claro. Morta de sono, me arrastei por cada degrau da escada, tentando não prestar atenção no que Alice falava ao telefone - sem sucesso algum, obviamente:

- ...Mas eu acho que ela vai ficar bem sim. - Ela concordava com a voz do outro lado da linha. Voz que eu sabia muito bem de quem era. - Não vejo a hora de te abraçar, de sentir seu cheiro, de beijar você... Eu também já vou dormir também, vou sonhar com você... - Alice sorriu um sorriso diferente dos que eu me lembrava e ninguém conseguiria ter noção do quanto as quatro palavras seguintes àquele sorriso me apavoraram. - Eu tambem te amo, Sal. Boa noite e durma bem, meu anjo... Tá... Eu vou sim... Tchau.

Alice desligou e eu tratei de subir o resto da escada, indo na direção do meu antigo quarto e me jogando na cama que já não parecia mais tão minha, assim como tudo naquela casa. Fechei os olhos, sentindo um aperto no peito, sabendo o quanto iria ser difícil dormir sob este teto. Principalmente quando eu não tinha pra quem ligar pra dar boa noite, e infelizmente, este era o caso.



Acordei transtornada com uma sensação terrível de estar num deja vu, abri meus olhos e vi, as paredes vermelhas que tanto mamãe se recusara a pintar por não ser muito adequado para a moça direita que ela tão loucamente desejava que eu fosse, juntas à que costumava estar tomada de pôsteres e fotos - que eu tratei de remover e pôr numa caixa no dia que fui embora, e agora jazia branca, sem vida.

Alice dormia quieta no colchão ao lado da cama, eu levantei e andei até meu velho guarda-roupas, tentando não fazer barulho e é óbvio que a porta rangeu loucamente quando eu a abri devagar. Ainda guardava o mesmo cheiro bom de roupa recém lavada, trazendo mais uma vez à minha cabeça o assustador sentimento de estar em "casa" outra vez.

Olhei bem, parecia que alguém havia mexido, as roupas que restaram ja não estavam mais nos cabides. Então me desesperei pra checar, com o coração acelerado, abri a segunda gaveta e ainda estava lá. Tão cheia de poeira a ponto de quase não dar pra ver o preto da caixinha, segurei nas mãos e soprei o descaso do tempo que estive longe e rodei a chave uma, duas, três vezes, delicadamente. E ela abriu, em silencio, deixando a bailarinazinha girar ao som de uma melodia calada, guardando meus tesouros secretos.

Uma correntinha fina de ouro - herança da minha vó, tão frágil que dava pena de colocá-la na mão, um pingente em forma de gota que eu achava lindo demais pra merecer carregar no pescoço. Uma folha de caderno dobrada e rabiscada com o meu primeiro croqui de um vestido, meigo, feito no meio de uma aula de química no primeiro ano. A pulseira da sorte, que eu e Alice haviamos feito, uma pra cada, na quarta série, a minha azul com vermelho e a dela preta e branca.

Uma foto minha, horrorosa, com sei lá, 12 anos. Uma foto engraçada de Alice e eu fazendo careta pra câmera de tia Déia, com a cara melecada de Frutili, aos provaveis seis aninhos a julgar pela adorável falta de metade da minha sobrancelha esquerda. Uma de Marcela nos ombros de Breno, Bruno comigo no colo, e Alice implícita por ter tirado a foto, no aniversário de 15 anos dos gêmeos. E debaixo de todas elas só mais uma fotografia, minha mãe segurando Isa recém-nascida nos braços, com um sorriso no rosto nunca dirigido a mim, mas mesmo assim eu não conseguia deixar de amar aquela foto.