quarta-feira

Capítulo 12 - A linda dele

Foram horas tentando assimilar nomes de drinks e sacodindo copos tentando conversar e parecer bonita ao mesmo tempo. Meus futuros colegas de trabalho pareciam muito com todas aquelas pessoas bonitas que se vê nas revistas, os rapazes - fossem seguranças, garçons, barmans ou gogo-boys - eram daquele tipo que devia fazer chover mulher, e as mulheres - fossem o que quer que fossem, bem... eram re-al-men-te lindas, e eu definitivamente não sabia o que estava fazendo lá.

- Rebeca. - Uma voz grave me chamou, enquanto eu tentava decorar a ordem das cores das garrafas embaixo do meu ponto no bar, depois de anunciado o intervalo dos workshops.

- Pois não? - Respondi, levantando rápido e (pra variar) taquei a cabeça no balcão. - AI. Ai. Desculpa. Ai. Oi chefe. - Alguém pode por favor me arrumar um buraco pra enfiar minha cabeça. Com gelo, por favor.

- Cuidado aí, menina. - Ele falou, me ajudando a sair enquanto eu esfregava minha testa. - Hahahaha.

- Tudo bem, seu Roriz. Ótimo que agora eu sou a piada do chefe. - Ele continuou rindo.

- Seu Roriz é? - Eu fiz que sim com a cabeça.

- Ou prefere só chefe mesmo? - Discordando de mim, ele sorriu e pegou um saquinho no bar, encheu de gelo e botou na minha cabeça.

- Seu Roriz é o meu pai. Pode me chamar só de Renato mesmo.

- Beleza. - E apontei pro saquinho, sorrindo. - Obrigada, Renato.

- Os instrutores falaram bem de você.

- Te disse que eu aprendia rápido. - Renato concordou, então de repente eu estava fazendo alguma coisa certa.

- Tudo bem, vou parar de te prender pra você ir aproveitar seu intervalo. - Ele apontou pra perto da mesa de aperitivos - Seu namorado não pára de olhar pra cá.

Era Sal, acenando quando eu olhei. Eu levantei a sobrancelha e tirei o saquinho de gelo da cabeça.

- Ele não é meu namorado. - Falei. Renato sorriu, deu meia-volta e disse antes de ir andando até sua sala:

- Que azar, o dele.

Não deu dois minutos e Sal veio andando até onde eu estava, me ofereceu um pratinho cheio dos negócios da mesa e sentou do meu lado, sem dar uma palavra.

- Nossa, eu nem sabia que ainda existiam Tortuguitas. - Eu disse enquanto devorava a cabeça e as pernas de uma das que ele me havia botado no pratinho.

Sal concordou com a cabeça, abocanhando uma delas, toda de uma vez, olhando pro nada, sem dar uma palavra. Eu amarrei meu cabelo e soprei a franja dos olhos.

- Você quando tá com a Alice passa o tempo inteiro assim calado ou eu sou tão desinteressante assim pra ficar ignorando até minhas m...

- É que eu quero falar com você. - Ele me interrompeu. - Só não sei como começar, nem sobre o quê, mas eu adoraria falar com você, Rebeca.

Um pequeno sorriso irônico se abriu na minha boca enquanto eu jogava alguns cinco pastéizinhos nela.

- Eu sou uma pessoa. - Mastiguei duas ou três vezes e enoli. - Não um bicho. - Sal riu.

- Do jeito que você come, parece mesmo um bicho. - Eu ri e dei um murro carinhoso no braço musculoso e escultural tão lindo quanto o sorriso dele.

- Mas e aí? Como está indo seu treinamento?

- Tá bacana o negócio. Não quebrei nenhum copo, não derrubei nenhuma bandeja... A moça da instrução olhou tanto pra minha bunda que eu acho que vou ficar na sala VIP. - Nós dois rimos por um tempo até ele ficar sério outra vez. - Não fala da moça da instrução pra Alice não, tá?

- Tudo bem, eu entendo... Sem querer eu ouvi vocês dois conversando hoje depois do almoço.

- Era sobre ela que você queria falar quando me mandou aquela mensagem, né? - Eu confirmei com a cabeça. - Depois de domingo eu fiquei sem a menor ideia do que fazer, ou de como agir. Alice é diferente de todas as mulheres com quem eu já estive. Diferente demais.

- Garotão, vou te contar um segredo: Todas as mulheres são diferentes umas das outras. A diferença é que Alice te é mais especial do que todas as outras porque você gosta dela e é de verdade dessa vez. Então, por favor, não seja burro ou infantil de perdê-la só por medo de ser tão importante pra ela quanto ela quer que você seja. Seja calmo, paciente, doce, carinhoso e, principalmente, tenha cuidado com a minha amiga. Se você a ama de verdade, não vai magoá-la. Porque se você magoar a Alice, aí sim você vai ter problemas.

- Você tem razão.

- Acostume-se. - Falei, levantando a sobrancelha. - Eu sempre tenho.

Ele riu e levantou quando anunciaram o fim do intervalo, falando:

- Bruno devia tomar cuidado. - Eu sorri confusa. - O chefe parece estar adorando isso de dar em cima de você.

- Deixa de falar besteira e vai pra lá carregar copo, eu vou ficar aqui aprendendo a embebedar as pessoas. - Nós dois rimos. Sal me segurou pela mão, para que eu me levantasse e meu braço inteiro se arrepiou num segundo. Corri pra tirar minha mão da dele antes que ele pudesse notar. - Anda, antes que eu perca meu emprego e você o seu, a moça tá chamando.

- Obrigado, Beca. De verdade. - Eu ri muito, voltando pra trás do meu ponto no bar.

- Não gasta todos os agradecimentos de uma vez só não que eu tô prevendo muito tempo pra frente ajudando nesse namoro de vocês dois.

- Beleza... Eu volto pra república com você quando acabar aqui, tudo bem? - Fiz que sim com a cabeça, acenando um vá embora com a mão.

- A gente se vê na saída então, garotão. - Ele deu meia-volta e foi andando até o seu próprio setor, e eu toda bocó olhando o desenho dos ombros dele sob aquela camisa bonita. E bem que a instrutora tava certa, com os atributos que tem esta criatura de Deus, devia ser crime ele andar por aí sem nenhum aviso prévio. Suspirei me deixando roer de carência, decorando o desenho das costas de Sal por um segundo ou dois, até tomar vergonha na cara e voltar pras minhas cachaças coloridas.

~

Quando eu saí ela já estava perto do portão, sentada sozinha debaixo da luz do poste, rodando entre os dedos uma garrafa de um jeito bonito, parando-a no ar e enchendo um copo imaginário com a outra mão.

- Olá. - Eu disse, e Beca tomou um susto, quase derrubou a garrafa e o copo imaginário, se fosse de verdade, teria se espatifado todo no chão. Ela xingou algo que eu não ouvi, sorriu nervosa e levantou rápido.

- Vamos? - Confirmei com a cabeça ainda rindo enquanto caminhávamos para o ponto de ônibus. - Pelo menos eu não derrubei a garrafa, tá!

- Era legal, isso que você tava fazendo, girando a garrafa.

- É. - Ela concordou e continuou. - Me sinto a própria Piper Perabo em 'Show Bar'. - Como se eu soubesse quem era, e ficou rindo. - E você, a moça lá parou de olhar pra sua bunda?

- Não sei. Mas espero que meus atributos físicos pelo menos me rendam um bom lugar da pista VIP na lista que sai amanhã.

- Já eu prefiro não criar esperança nenhuma de estar no bar da pista VIP, porque né, os outros barmans são muito mais experientes do que eu e com história de parte física nem água pra mim, meus instrutores... Tinha um que não tirava os olhos do muque do cara que tava do meu lado. Derrubou umas duas garrafas, distraído com os braços do rapaz. - Nós dois rimos.

- Ah Beca, mas você tem o chefe! O cara tava praticamente te comendo com os olh... Ai. - Ela me beliscou. - Doeu!

- Pra você deixar de falar coisa besta e dar sinal pro ônibus que tá vindo aí. Anda. - Eu ri. Beca também. Nós subimos no ônibus.

Faltavam menos que duas quadras quando eu tirei os fones dos ouvidos e entrei num discreto estado de desespero.

- Eu não sei o que falar pra ela. Eu não sei o que ela quer ouvir. - Beca respirou fundo.

- Sal, eu sei que você não é tapado. Às vezes parece, mas eu sei que você não é. Ela tem medo. Medo de perder você por ainda ser... Ser...

- Virg... - Eu tentei ajudar, mas ela deu um tapa no meu braço e completou:

- Um unicórnio. Para, não ri que eu to falando sério. - Eu ri mesmo nervoso. - Alice é um tipo raro de mulher pra se encontrar por aí. O único problema dela é a insegurança revoltada que você conheceu hoje de manhã. Ela tem de frágil o tanto que tem de bonita. Então...

- Eu já entendi. - Falei, levantando pra pedir parada. Nós dois descemos do ônibus bem em frente ao portão da escadaria.

- Espero que tenha entendido mesmo, garotão. Agora vai lá ganhá-la outra vez! - Beca disse, me empurrando e dando um tapinha camarada nas minhas costas. - Boa sorte.

Eu virei de frente pra ela, baguncei seu cabelo, beijei-lhe a testa, sorri, então voltei pra subir as escadas e ter de volta a minha linda.

sexta-feira

Capítulo 11 - Tricô Das Mina (Parte 3)

- Ei menina. Dormiu aí, foi? - Por um segundo, a minha mente sonolenta combinada ao sol quente e à voz que era idêntica, eu imaginei que fosse ele. Mas não era.

- Bem que eu queria ter pelo menos dormido, viu. - Breno sorriu e sentou do meu lado no primeiro batente da escadaria. - Que horas são?

- Cinco minutos pra daqui a pouco e alguma coisa. - Ele disse, olhando para um relógio imaginário no próprio pulso e rindo, eu ri também.

- Dã. - Brinquei, bagunçando o cabelo do gêmeo que não tinha o cabelo curto nem o sorriso torto.

- Brincadeira. São umas seis e dez. Tá cedo... Mas vem cá, por que essa preocupação toda que nem dorme, hein moça? Ainda coisa da tal visita que você fez à sua mãe, é?

- Não não. Dessa vez nem minha mãe tem culpa de nada. A besteira foi toda minha mesmo... - Falei baixando a cabeça, ele bagunçou meu cabelo, todo carinhoso. - Você tem aula agora de manhã? - E ele respondeu com a cara mais empolgada desse mundo.

- Aham, tenho todos os horários na universidade agora de manhã, um ensaio de grupo da peça que a gente tá montando pro projeto lá da Escola Central. - Então eu caí na burrisse de perguntar:

- O Bruno já acordou?

- Ér... Ele não dormiu em casa, Beca. - Tenso. - Eu até pensei que vocês estavam... Juntos.

- Hum, não, tudo bem... - Eu não conseguia explicar nem pra mim mesma o porquê de eu estar tão desorientada quando levantei da escadaria sem sequer me despedir de Breno, que falou qualquer coisa na qual eu não prestei atenção alguma, bem como às sei lá quantas aulas de introdução à moda que se passaram ao longo da manhã.

- Terra para Beca. Terra para Beca. Terra para Beca. - Era Verônica perturbando enquanto eu arrumava minhas anotações.

- QUÊ.

- Calma, gente. - Ela falou, rindo. Eu respirei fundo.

- Ai, desculpa Vê. O que foi?

- Era só pra se você tinha alguma coisa preparada pra aula.

- Eu ia começar um projeto de quadrinho com eles, mas pode ficar só pra próxima semana mesmo... - Ajeitei minha mochila e a gente foi saindo do prédio. - Já sei, manda eles criarem um super-herói.

- Ótima ideia! - Verônica falou, me abraçando quando já estávamos no portão de entrada. - Tem tempo pra gente almoçar?

- Aham. Tenho que estar às três no galpão, alí pertinho da república, pro treinamento... Ainda são onze e meia, tem tempo de sobra. - Amarrava meu cabelo num rabo de cavalo e nós duas atravessávamos a rua, indo pro restaurante de sempre.
Com quinze minutos chegaram Marcela e Sal. Com mais dez, vieram Alice, João e Bruno.

- Cês já pediram alguma coisa? - João perguntou, sentando do lado de Marcela e dando-lhe um beijo na bochecha. Insisti pra trocar de lugar com Alice (ainda com a mesma cara desanimada dos dias anteriores) para que ela ficasse perto de Sal, o que magicamente me fez ficar ao lado de Bruno.

- Não não, a gente tava esperando vocês. - Verônica repondeu, mexendo no celular. - Cadê o Breno, hein?

- Acho que ele não vai vir. - Falamos eu e Bruno ao mesmo tempo. E ele continuou:

- Breno ficou organizando um monte de coisa do Centro comunitário e tal... - Ele falou, virando a página de sanduíches naturais, daí olhou pra mim. - Que você vai comer?

- Tô sem fome... Pede um daqueles sanduíches de churrasco grego pra mim. Cheio de tomate. - Bruno olhou pra mim e riu. - Que foi?

- Imagina quando você tiver com fome!

- Hahaha. Como você é engraçado. - Respondi, dando um murrinho no ombro dele, que bagunçou meu cabelo.

Depois que todo mundo terminou de comer, sob imensos protestos de Marcela sobre palitar os dentes, pagamos a conta e fomos indo em direção à saída.

Alice chamou Sal num canto, mesmo com alguma resistência, ele foi. Eu fiquei enrolando, olhando a mesa de sobremesas. Ela perguntou uma coisa na qual eu não prestei atenção, daí muito sem querer eu fui ouvindo a conversa:

- Eu.. Queria saber te explicar isso, o que eu tô sentindo. Eu só não sei como, eu juro que não sei. - Ele falou, segurando a mão dela sobre o peito dele. - Olha. Olha só o jeito que eu fico quando falo com você... Eu tenho que ir agora pra esse treinamento, e...

- Tudo bem, Sal. - Alice respondeu, séria, soltando das mãos dele. - Então quando você descobrir um jeito de me explicar porque não consegue ficar 10 minutos perto de mim sem arrumar uma desculpa pra sair de perto, você me fala. Você tem o tempo que quiser. - E saiu. Deixando ele lá, com aquela cara que pedia com os olhos um Almir Sater de viola. "Encosta sua cabecinha no meu ombro e chora".

- Sal. - Eu chamei, ele olhou e perguntou:

- Cê tá indo pra lá agora? - Eu fiz que sim com a cabeça. - Eu posso ir com você?

- Pode. - Pode ir e se quiser voltar mesmo depois da gente chegar lá, eu deixo. Eu já te deixei se jogar sem saber de cabeça no buraco negro que é meu coração e tomar conta de praticamente tudo por lá, por que não te deixaria ir comigo?

E fomos o caminho inteiro sem uma só palavra ser dita, entre uma olhar e outro que eu me permitia roubar quando ele não estava vendo. Olhar não mata. Não matava minha vontade de abraçar seus ombros perfeitos, não mata minha vontadeva de sentir o gosto da boca dele, ou de ouvir sua voz sussurrada na minha orelha, não matava minha vontade de não ser mais só, pra ter ele do meu lado, nem de ter ele pra mim. Não matava nada nem ninguém, mas pelo menos eu te podia olhar, Sal. Porque ninguém te disse, e você nunca percebeu.

terça-feira

Capítulo 11 - Tricô Das Mina (Parte 2)

Uma tarde inteira de aulas devidamente ignoradas pela minha mente distraída, segui o habitual caminho em grupo de volta à república.

- O que vamos jantar mesmo, Marcela? - Verônica perguntou. A morena dos olhos verdes com um enorme sorriso maroto pro meu lado.

- Provavelmente um monte de novidades. - Ela respondeu e eu estirei o dedo pra ela, sorrindo de volta.

- Beca, quando que é a inauguração daquela boate que você e o Sal vão trabalhar? - Meu estômago revirou duas vezes antes de responder:

- Acho que é na quinta, Breno. Falar nisso, o chefão lá disse que quer todos os funcionários por lá amanhã pro treinamento a tarde inteira. Verônica sua linda, você poderia dar minha aula de desenho no centro comunitário, só dessa vez?

- Fazer o quê, não é mesmo? - Ela concordou me dando um abraço enquanto continuávamos andando. Então eu notei que Bruno andava de cabeça baixa com os fones atolados nas orelhas, um pouco mais afastado do grupo e alguma bebida gelada foi mentalmente jorrada ao longo da minha espinha. Ele devia estar querendo espaço. E eu também. Logo, continuei andando junto com as meninas mas sem perder ele cabisbaixo do canto dos olhos.

- Ele não parece a mesma pessoa que me abriu a porta hoje de manhã. - Alice falou baixinho, perto de mim, olhando na direção de Bruno quando a gente já tava entrando em casa. - Nem ele, nem você.

- Eu só fiz o que eu achei que era certo, não quero fazer mal pra ele.

- Talvez as duas coisas não sejam uma coisa só. - Ela falou num daqueles meio-sorrisos de lado que só dava junto dos conselhos sabidos que vinham do fundo do coração e bagunçou meu cabelo enquanto eu joguei minha mochilinha e a mim mesma no banheiro pra tomar um belo de um banho.

Então, cheirosa e toda trabalhada naquele velho camisolo que me favorece pra ver se eu acordava do baixo-astral que me acometeu só de ver a tristeza dele.

- Bora Beca, anda! - Resmungou Marcela, manifestada de tanta curiosidade, mexendo algo cheiroso na panela. - Por que o Bruno tá com essa cara de choro desde a hora que te viu, até a gente chegar aqui?

- Eu meio que.. Dei um pé nele.

- Mas depois de dar outras coisas também, né bonitona? - Verônica falou se jogando em cima de mim no sofá.

Alice pegava os pratos na estante, quieta pensando em alguma coisa lá longe enquanto as outras duas faziam piada com a minha cara. Marcela parou de mexer na panela e tirou da geladeira um prato cheio de brigadeiro congelado e veio com aquelas já habituais quatro colheres coloridas pra sentar com a gente. Verde pra Alice, amarela pra Verônica, azul pra Marcela e vermelha - que rufem os tambores - para mim.

- Foi ruim assim pra você dar um pé nele logo de manhã? Porque ele tava todo realizado com cara de bobo quando abriu a porta pra mim.

- Pior que não, Alice. Foi romântico sem ser aquela coisa melosa, foi lindo e tinha a música no celular dele, foi... Praticamente todas aquelas coisas que a gente imagina, sabe? Pelo menos que eu imaginei. - Peguei um monte de brigadeiro na colher e taquei todo na boca. - Mas.. Sei lá.

- "Mas..."? - Todas três.

- É o Bruno, gente! - Eu falei, brandando a colher no ar.

- Sim. - Marcela disse. - Ele é lindo, inteligente, sabe dançar, engraçado, carinhoso, divertido e é um caso RARO MESMO, já que foi você que deu um fora nele no outro dia e não o contrário!

- Tenho certeza que ele não fez lá nada de muito errado, porque ambos os gêmeos têm la sua dose de charme e pegada. E nisso eu acredito que a natureza não iria pecar no quesito de igualdade depois da merda que fez com a personalidade do Breno. - Acrescentou Verônica.

- É, mas... - E Alice continou:

- Ele é louco por você, desde sempre, desde que vocês tinham...

- É esse o problema. - Eu disse, me dando por vencida. - Eu não tenho essa capacidade pra suprir as expectativas de uma pessoa com um sentimento desse tamanho. Acho que eu nunca vou conseguir ser, então eu resolvi cortar logo, antes que eu me envolva e... Acabe magoada quando ele vir que não era nada do que ele esperava... E me deixe.

- Ô Beca. - Marcela me abraçou. - Deixa de ser besta, menina. Você sabe que não é desse jeito. Você não precisa ficar se protegendo.

- Marcela, eu não sou assim. Você sabe que eu não sou assim. Porra, eu fiz planos! Ele alí deitado comigo, e eu imaginando a gente velhinho junto. É ridículo, não sou eu.

- Não é você, Beca. Somos todas nós. - Verônica falou.

- Não tem pra onde correr. - Marcela disse, ainda me garrando num cafuné - É uma condição existencial feminina.

- O medo? - Eu perguntei.

- Não. - Verônica respondeu - A esperança de ter um café na cama te esperando de manhã.

- Então um brinde ao primeiro (de muitos) peguetes evoluídos. - Sugeriu Alice, desconfortável de ficar por fora da conversa, levantando sua colherada cheia. Nós brindamos as colheres ao meu primeiro peguete nível dois, ao apagão da noite anterior à nova tintura no cabelo loiríssimo de Verônica, ao maravilhoso brigadeiro e rimos da besteira enquanto eu ainda tentava engolir o choro. E nisso, eu era realmente boa.

Comemos a janta de nome bonito que Marcela havia feito até raparmos o prato, assistimos a novela, Alice e Verônica foram lavar a louça e eu resolvi ir dormir. Lê-se dormir como chorar sozinha no quarto enquanto ninguém estava olhando. E é óbvio que eu ainda não havia parado quando Alice chegou, e pulou direto na minha cama, deixando eu encostar a cabeça no colo dela.

- Desculpe não poder te dizer nada naquela hora. Minha falta de conhecimentos experimentais não eram suficientes. Resolvi acabar com a conversa quando vi sua cara de "tô disfarçando choro" que eu conheço desde que te conheci. - Ela me abraçou e eu morri de chorar de novo por mais uns vinte minutos até conseguir voltar a falar.

- Ô Lice, deixa de besteira, nada de desculpa não. Me bastava só um abraço desse. - Eu levantei, enxuguei os olhos e me sentei de frente pra ela. - Agora vem cá, essa cara depressiva aí. O que foi que aconteceu? Alguma coisa com o Sal?

Ela balançou a cabeça dizendo que sim, e antes dela se jogar no meu colo como eu fiz com o dela eu só vi os olhinhos cor de mel dela cheios d'água.

- Ontem a gente tava aqui. Tava tudo bem, tudo ótimo. - Soluços - Como não tinha luz, por osmose não tinha filme pra ver - soluços - então a gente começou a conversar, conversar, conversar, daí acabou o assunto.

- Então vocês começaram a se pegar, se pegar, se pegar... - No meio dos soluços ela abriu um espaço pra me dar um murrinho no braço. - Desculpa, não resisti. Vai, continua.

- Pior que foi isso mesmo. Mas aí... Ele perguntou se eu queria continuar. Foi tipo aquela coisa tensa, sabe?

- Tipo, "o que diabo eu faço agora", é eu sei.

- Daí eu sem saber o que fazer, fui e falei que nunca tinha feito nada do gênero. E ta-da, de repente ele ficou pior do que eu tava, sem saber como agir, arranjou uma desculpa qualquer pra ir embora, nem beijo de boa noite me deu. E a única coisa que eu ganhei dele hoje foi uma mensagem dizendo "Não vou pra aula hoje, tenha um bom dia minha linda." - Ela soluçou mais um pouco. - Eu não sei o que fazer, ou se eu fiz a coisa certa, ou se eu acabei mesmo antes de começar meu primeiro relacionamento decente nessa porcaria de vida. Eu sou uma bocó mesmo.

- Ei! O que é isso? Quem é você e o que fez com a minha melhor amiga com personalidade suficiente para nem sequer pensar na possibilidade de se culpar pela imaturidade desse cara?! - Alice sorriu, deixando que eu enxugasse os olhos dela.

- Eu sei, Beca. Só que...

- Não se preocupe, ele só deve estar confuso com a situação. O Sal foge do seu tipo habitual de cara, mas ele... Ele ama você, e ele me convenceu que era verdade, e eu não acho que ele vá te deixar por um motivo desse. Dá um tempinho só pra ele assimilar as idéias, e ele vai ser quem você precisar que ele seja. - Eu falava as palavras pisando num caquinho de vidro a cada uma delas. Eu o amava também. O problema é que eu tava louca de vontade de começar a chorar, e ela conhecia todas as minhas caras pré-choro, era meu dever de amiga protegê-la inventando um disfarce pra choro novo.

- Obrigada. - Alice agradeceu indo pra cama dela.

- Não tem porque. - Ela sorriu, se deitou e passou uns instantes encarando o teto antes de perguntar:

- Beca, dói?

- Dói. Porra, dói muito. - Ela continuou rindo da minha ênfase.

- Mas é bom?

- É. É bom sim. - Alice ficou rindo até adormecer, e eu perdi totalmente o sono.

O sono e a noção, quando às três da manhã saí do quarto, passei pela sala, deixei entreaberta a porta do apartamento e fui parar na escadaria, mandando uma mensagem de celular:

"É muito pedir pra você vir aqui uma hora dessas. Mas eu não acho que eu vá conseguir dormir sem te explicar uma coisa. Beijo. Beca."

segunda-feira

Capítulo 11 - Tricô Das Mina

Um eu muito desorientado acordou com o sol surgindo na janela e vindo direto na minha cara, uma Beca adormecida com os braços ao meu redor, e um toc toc insistente na porta.

Me livrando dos braços de Beca com o maior cuidado pra não acordá-la, cambaleei ainda sem muita noção das horas até a porta do apartamento e abri me deparando com uma Alice apressada, irritada, sem lá olhar pra quem estava além da porta e com certeza falando muito mais rápido que o normal.

- Bruno, ó, se a Beca aparecer por aqui entrega isso pra ela. - Ela disse, me jogando nas mãos um molho de chaves com chaveiro de borboleta que eu bem conhecia enquanto mexia num monte de papéis da pasta que carregava. - A droga do meu celular não despertou, eu não dormi porra nenhuma, ela não chegou em casa até agora, aliás nenhuma das três chegou, eu tenho (ou tinha) dois trabalhos pra entregar na primeira aul... - Até que bom, finalmente viu que era Beca no sofá e por um segundo eu quis um emoticon da cara que ela fez quando notou que Beca não vestia muita coisa além da minha camisa e começou a gaguejar. - Ér... A-a-até depois. Entrega isso pra ela, tá? Tchau.

E sumiu de vista correndo e gritando quando viu o ônibus passando em frente ao portão da escadaria. Eu ri sozinho, fechando a porta sem - assim como Alice - acreditar lá muito no que havia acontecido ontem à noite. Então eu fui fazer um café pra nós dois, numa tentativa frustrada de parar de ficar olhando pra ela adormecida e linda tão quieta no meu sofá.

Uma bandeija velha que eu achei quase que na alma do armário sobre a pia, as minhas melhores torradas queimadas do mundo, guardanapos, as duas últimas caixinhas de Toddynho da geladeira e uma flor que eu roubei do jardim da vizinhança quando fui comprar pão.

Fiquei com preguiça e um estômago revoltoso de esperá-la acordar, liguei a tv, peguei uma das torradas quase carbonizadas e na falta do que mais ver, deixei em algum programa desses de culinária que costuma passar de manhã.

~

Me espreguicei e esfreguei os olhos por uma eternidade antes de abrí-los e por um acaso notar que eu não estava na minha adorável cama, nem no meu adorável quarto, nem tampouco no adorável apartamento onde ambos ficavam.

Sentei desorientada no sofá e me deparei com o rapaz de cabelos pretos, ombros bonitos e sorriso torto me apontando uma bandeija de café da manhã com uma rosa vermelha num copo de requeijão. Eu cobri o rosto com as mãos.

- A gente não devia fazer isso.

- O quê? Tomar café? - Perguntou Bruno, ainda com aquele sorriso na boca.

- Talvez seja melhor eu ir agora. - Falei, levantando ainda com aquela camisa que só tinha o cheiro dele. Catei minhas chaves e roupas que estavam juntas sobre o balcão.

- Espera Beca, você não vai nem comer a torrad... - Saí antes de mudar de ideia. Saí sem olhar outra vez pra ele, pros ombros, ou pro sorriso dele. Era melhor assim. Era melhor pra nós dois.


Hora do almoço e eu encontro uma Alice com uma cara de quem viu pessoalmente a Baleia de Graciliano Ramos morrer, sentada numa mesa reclusa com Verônica - mais loira que o normal, e Marcela se acabando num sanduíche maior que eu e falando sobre como tinha conseguido achar o caminho da casa de João no breu da noite anterior.

- Boa tarde, sua linda. - Marcela disse, puxando a cadeira vaga entre ela e Alice, mas sem sequer cogitar a possibilidade de soltar o bendito sanduíche.

- Boa... - Respondi, sentando no lugar que me fora apontado, enquanto Raul (o garçom garboso) anotava meu pedido de sempre.

- Que bom que cê chegou, nós duas estamos tentando descobrir o que diabo aconteceu com o terceiro elemento que tanto pensa na morte da bezerra olhando pro nada desde que chegamos aqui. - Falou Verônica, apontando pra Alice entre as garfadas de salada.

- Nossas apostas estão entre "ter descoberto que o tal Sal não tinha lá esse tempero todo no escuro" e "moreno, alto, bonito e sensual que afanou toda sua alegria numa noite louca de amor nas garras da escuridão", obviamente a segunda aposta é minha.

- Ai Marcela, coitada. Deixa a menina falar. - Eu disse dando um tapa no ombro dela - Que foi que aconteceu ontem, Alice?

Ela deu de ombros e continuou jogando a comida prum lado e pro outro antes de sorrir pra mim com um olhar todo malicioso que normalmene era meu.

- Minha noite não deve ter sido tão boa quanto a sua, não é dona Beca?

- O encontro com o Bruno! - Marcela lembrou.

- Opa, peraí que eu acho que eu tô por fora dessa. Que foi que aconteceu, Rebeca? - Falou Verônica e levando minhas mãos ao rosto me afoguei no poço vermelho de vergonha que era a minha cara neste momento.

- AH MEU DEUS. - A burra da Marcela, manifestada a ponto de soltar o sanduíche. - É sério que é o que eu tô pensando?!

Ainda com as mãos no rosto, fiz que sim com a cabeça antes de tacar, voluntariamente, a testa na mesa.

- MENTIRA! - Ao mesmo tempo, Verônica e Marcela.

- Bom que eu fui deixar as chaves com o Bruno de manhã, porque pensei, sei lá o que eu pensei, quando eu olho, tá a Beca, dormindo no sofá com a camisa dele.

- Mas e aí, Beca, como foi?! - Verônica perguntou, enquanto Raul (o garçom garboso) me vinha deixar o sanduíche natureba de segunda-feira.

- Ai gente, eu não vou falar sobre isso. - Falei abocanhando o sanduíche - Não aqui pelo menos.

- Okay, beleza. Noite das garotas hoje então?! - Propôs Marcela. - Sem rapazes, pra gente poder botar os babados em dia. Eu faço o jantar.

- Por mim tá ótimo. - Alice respondeu, seguida por Verônica e eu idem.

- Pelo menos assim a Alice pode nos contar por que diabos essa cara de enterro está em sua poker face. - Falei, dando outra dentada naquela coisa maravilhosa de frango e cenoura.

quinta-feira

Capítulo 10 - B&B (Parte 3)

Abri a porta e entrei quando vi que ele vinha. Eu estava muito bem sentada, de pernas cruzadas no balcão da cozinha. Bruno abriu a porta e me procurou por alguns instantes.

- Posso saber o que você tá fazendo aí em cima? - Ele perguntou, quando deu por mim.

- Bom, você me perguntou se ainda faltava alguma coisa para uma noite perfeita, não foi?

Ele concordou, enquanto eu o puxava pela camisa mais pra perto de mim. Puxando até - nem tão por acaso assim - tirá-la.

- Eu só queria morder seu ombro. - Falei fazendo caminho com o nariz pelo desenho daquele horizonte que vinha do pescoço aos ombros dele. - Sentir esse cheiro bom no seu pescoço e, principalmente, o gosto, que tanto me assusta, da sua boca na minha... - Fui bem perto da orelha dele e perguntei: - Eu ainda preciso falar mais alguma coisa?

- Não, não... Não fala mais nada. - Ele disse antes de me segurar por alguns segundos fora do chão sem tirar minha boca da dele.

Minhas unhas vermelhas. A cidade sem luz. O sorriso torto e safado. Um apartamento vazio. Ombros à mostra. Meu juízo e a camisa dele jogados pelo chão de madeira.

Eu nunca havia visto um vestido ir embora tão rápido, eu nunca vi um sofá tão convidativo, eu nunca vi um escuro tão confortável como no calor daquele momento sem luz mas mesmo assim tão radiante. Eram dedos demais, línguas e cheiros demais, mãos demais, reboladas demais à medida que as roupas, o ar e a vergonha na cara iam ficando de menos.

Mas foi só quando ele resolveu parar e procurar a própria carteira nos jeans que estavam perdidos no escuro que eu resolvi notar onde diabo isso ia chegar. Foi aí que minhas mãos começaram a formigar assim como a ânsia de vomitar tudo o que eu não havia comido hoje. Eu - como a sempre bocó que sou - tinha de perguntar:

- P-posso sab-ber - pigarro nervoso - Posso saber o que é que você tá procurando? - É claro que eu sabia o que era que ele estava procurando na bendita carteira, só queria uma tentativa frustrada de acordar numa realidade aleatória onde eu deveria estar sonhando isso. Minhas mãos formigaram ainda mais quando ele respondeu:

- Eu achei melhor deixar por perto. Só isso. Não se preocupe. A gente não vai fazer nada que você não queira. - Era justamente o problema, eu não queira não-fazer nada. Só que pra não não-fazer nada, eu ia ter de fazer alguma coisa. Logo meus pés começaram a tremer loucamente.

Ele voltou pro sofá todo manso, deixou aquilo em cima da mesinha de centro, voltou pra perto de mim, deitou no meu colo e me abraçou.

- Você tá tremendo. - Bruno observou sorrindo. - Não precisa disso não, menina. Pode ficar calma.

- Eu estou calma. - Mentira. - Eu to super calma. - Mentira. - Eu estou calmíssima, Bruno.

- Você fica linda até mentindo. - Ele sorriu outra vez, me beijou e minhas mãos pararam de formigar à medida que eu senti vontade de ficar alí com ele e a cueca vermelha dele pelo resto da minha vida. Na verdade, eu imaginei que ficaria muito bem ali pelo resto da minha vida mesmo sem a cuequinha vermelha.

Então envolvida pelos beijos e braços, o enroscar de mãos, pernas, o cheiro quase macabro de tão bom que era o da nuca dele, aquela coisa seminua naquele recinto sem luz. Eu resolvi tentar. E depois de resolver dar um passo à frente, ficou tarde demais quando eu cogitei a possibilidade de voltar os dois pés pra trás.

Ele ficava sussurrando na minha orelha coisas carinhosas, doces e cuidadosas nas quais eu não prestava a menor atenção, posto que continuava muito bem concentrada em não ter a menor ideia do que eu estava fazendo. Era bom, estranhamente bom. Mas, puta que pariu, que dor. Até entrar numa certa dimensão onde você perde a noção do tempo, mas a de espaço continua intacta, principalmente a de que o seu espaço é realmente pequeno para tamanha equação. - Só eu mesma pra conseguir pensar em física uma hora dessas, aliás, pensar em um milhão de coisas ao mesmo tempo.

A única coisa mais rápida que meus pensamentos era meu coração desesperado querendo escalar minha garganta e sair goela afora enquanto eu ficava a observar a linha dos ombros e a cara engraçada - contudo, absurdamente mais linda que o normal, e cada músculo e arrepio, dele e nele, sorrindo torto pra mim no escuro. Eu não consegui deixar de sorrir de volta, nem de implorar mentalmente praquela dor desgraçada passar, pra ficar só a parte boa e pra que eu não estivesse fazendo (nem que saísse) nada de errado.


E por um instante, quando ele simplesmente me guardou num abraço e me beijou as mãos, eu pensei que pudesse amar Bruno enquanto eu pudesse estar viva, com direito a enviar convites com os nossos nomes impressos em tons de prata pra casar de branco e envelhecer juntinho, como naquele abraço desajeitado e fofo, pra nunca mais ter frio e saber como gastar o calor, pra nunca ser pra mais ninguém além dele, pra ele nunca ser de mais ninguém, só meu. Pras nossas linhas se cruzarem, nossos trapinhos se juntarem, e pra nós dois aguentarmos o que quer que fosse.

E até quando o instante passou, mesmo sendo um quase não, ainda era amor. Não era muito mais que um farrapo, uma fagulha de amor. Era só um pouquinho de quase nada, mas eu sei que era.

~

Foi quando ela adormeceu nos meus braços e eu fechei os olhos, querendo que ela não me fosse embora nunca mais. Enquanto eu estivesse vivo, com direito a me deixar esperando vinte minutos no altar pra botar o sobrenome do meu pai no fim do nome dela, pra gente ficar velhinho segurando a mão no escuro, pra tomar cuidado dela, pra viver com e pra ela, pra não ser de mais ninguém além dela, pra não deixar ela ser de mais ninguém além de mim. Pras nossas linhas se cruzarem, nossos destinos se juntarem, pra que eu conseguisse conquistá-la, enfrentando o que quer que fosse, e pra que eu pudesse escrever "B&B"*em cada muro que me visse passar pensando nela.

Eu não consegui dormir. Preferi ficar sonhando acordado, com a mulher dos meus sonhos dormindo no meu sofá, nos meus braços, até amanhecer.


*B&B = Bruno e Beca.

sexta-feira

Capítulo 10 - B&B (Parte 2)

- Espera um segundo, esqueci de uma coisinha. - Pedi, empurrando Bruno que caiu ao lado de Alice no sofá, voltei correndo no quarto, abri a terceira do meu criado-mudo, estava dentro da caixinha de música que muito me preocupei em afanar daquela casa medonha. Só peguei e botei dentro da bolsinha na minha mão e fechei tudo. A campainha tocou assim que eu pus o pé no corredor outra vez.

Alice andou até a porta, arrumou a franja pro lado, ensaiou um sorriso meigo e abriu a porta pra ele, cujo sorriso em resposta ao dela invadiu a sala, corroendo todo o ar que eu devia estar usando pra respirar. Bruno segurou minha mão. Daí as luzes se apagaram e eu segurei a mão dele de volta.

Faltou energia.

- Parece que foi no bairro todo. - Sal observou pela porta que ainda estava aberta em meio ao breu.

Meus olhos começavam a se ajustar pouco a pouco à falta de luz.

- Acho que as velas estão guardadas por aqui. - Alice disse tateando o caminho atrás do balcão da cozinha. - Merda. Emprestei minha lanterna pra Verônica levar na viagem.

- A minha eu escondi pro Breno não levar. Tá guardada, lá em casa. - Bruno levantou, soltando da minha mão. - Vou lá buscar.

- Ei, espera. - Ele virou pra mim. - A gente ainda vai sair? - Bruno deu de ombros num sorriso frustrado. - Então deixa eu ir com você. Acho que eu vou ficar sobrando aqui. - Alice acendeu a vela e veio trazendo ela pra mesinha de centro da sala, totalmente corada com a minha observação, Sal não prestou atenção, apenas sentou ao lado dela.

- Juízo, viu? - Nós duas dissemos ao mesmo tempo. Eu ri, Bruno puxou minha mão me beijando o rosto, dei tchauzinho pros dois e fechei a porta, jurando que a mão dele segurando a minha ia nos levar ao apartamento ao lado. Mas não.

Como se eu já estivesse vendo muita coisa, assim que eu botei o pé fora de casa, as duas mãos dele fecharam meus olhos e foram me guiando pro outro lado.

- Pra onde nós estamos indo? - Perguntei curiosa. Eu o ouvi rir, tirando as mãos dos meus olhos.

- Você lembra da última vez que viu as estrelas assim?

Eu não sei explicar. Havia milhões de pontinhos cintilantes por toda a extensão da noite, um espetáculo no escuro. Eu nunca as tinha visto alí, tão por perto, um mar de estrelas pedindo pra serem vistas. Quase uma hora foi embora até eu conseguir falar alguma coisa.

- Parece até que elas estavam adivinhando que ia faltar luz, e se arrumaram só pra gente se perder olhando. - Eu disse, sentada na escadaria. Bruno tinha sentado do meu lado, encostando a cabeça no meu ombro.

- Queria ter adivinhado também. Só que como meus planos estão eternamente fadados a não darem certo... - Ele falou, com os olhos saindo do céu e indo pro chão. - Eu só queria uma noite perfeita... Consegui uma vaga pra nós dois jantarmos no restaurante mais caro da cidade, eu até peguei o outro carro do meu , o mais bonito, depois a gente ia... Deixa pra lá. Pelo visto a luz não vai voltar tão cedo... Eu só queria que fosse uma noite importante...

- Ei. - Eu disse sorrindo, levantando o queixo dele para que ele olhasse nos meus olhos. - Você sabe que eu nunca liguei pra essas coisas caras e granfinas. Eu ligo pra gente, nós dois. Eu aqui, você tá aqui e, ... Olha só esse céu! Tem certeza que precisa de mais alguma coisa ainda pra deixar essa noite maravilhosa? Só porque não tem luz não quer dizer que a noite não possa ser perfeita.

Ele continuou me olhando, como se tivessem maquininhas trabalhando na cabeça dele.

- Que foi? Eu falei alguma coisa errada? - Perguntei.

- Sim. Ainda acho que ainda falta alguma coisa.

- Eu posso pelo menos saber o que é?

Bruno sorriu e tateou a própria calça, procurando sabe lá Deus o quê. Tirou de dentro do bolso o celular, apertou algumas teclas aleatórias e aumentou o volume. Então ele disse, pondo o celular no vão da primeira janela fechada alí perto e me levantou:

- Só um bolero meio R&B pra gente dançar juntinho... De rosto colado, pra sentir seu coração bater assim, no ritmo do meu - Ele me levou mais pra perto, me ganhando na dança dele - e os dois no ritmo da música, pra gente rir das bobagens que você diz achando que fez alguma coisa errada e das vezes que você for pisando no meu pé.

Eu sorri toda boba com o jeito dele falando. Nós dançamos no escuro por mais um tempo até mesmo depois que a música acabou. Foi quando ele sussurrou na minha orelha, perguntando:

- Acha que ainda tá faltando alguma coisa? - Eu ri, mordi o canto da boca e sorri levantando a sobrancelha. Sem falar nada, parei de dançar, peguei o celular no vão da janela fechada e saí andando pro apartamento ao lado.

- Você vai vir? - Perguntei quando percebi que ele ainda estava lá parado de pé na escadaria, bobo e lindo com o jeito da minha resposta quieta.

sábado

Capítulo 10 - B&B

Eu não vou mentir e dizer que foi libertador chegar em casa depois de tudo. Deveria ser, mas não foi. Uma vez que girei a maçaneta com Bruno a tiracolo me enchendo de mimos. Mas *ta-da* lá estavam os dois, se pegando, no sofá. Não passava muito das quatro da tarde de um sábado nublado, aqueles com cheiro de chuva que não favorecem deixar a preguiça de um colo bom de lado. Eu baixei o olhar constrangido, me desconsertava ver o quanto os dois eram tão irritantemente perfeitos um pro outro. Dois pigarros, o casal voltou ao mundo real, Alice correu pra me abraçar:

- Onde você se meteu, desgraçada?! - ela disse me puxando a orelha. - Eu te procurei em toda parte! Fiquei preocupada... Me desculpe, por favor, eu não devia ter te levado pra lá.

- Foi um favor que você me fez, não precisa de desculpa nenhuma... Fez boa viagem?

- Aham. O Sal foi me buscar na rodoviária. - Ela disse apontando pro moreno sentado no sofá com um sorriso lindo e cheio de pena de mim, e Alice também. Ela tinha contado o que aconteceu, certeza. Quase no nível da indiferença, a pena é um dos sentimentos mais desgraçados que pode se ter por alguém que se importa com você. Me deixava pequena, menor do que eu já era. Pena me dava medo, me fazia mal, me causava raiva. Mas ninguem sente pena por mal, então eu não podia me cobrir de ironias com respostas ignorantes àqueles olhos voltados cálidos e piedosos pesando sobre mim. Eu fiquei calada e só sorri e fui andando até o meu quarto.

Bruno me seguiu carregando minha mochila, deixou-a sobre a minha cama. Me distraí com a janela. Ele segurou os dedos dele entre os meus e sussurrou na minha orelha não mais distraída:

- Imagino que não tenha nada programado pra esta noite além de assistir Ghost com sorvete de cajá, chorando por qualquer coisa que não seja o filme, imaginando o que aqueles dois alí estariam fazendo se a gente não tivesse chegado, imaginando como seria estar no lugar dela, imaginando como seria falar com a sua mãe sobre isso, até partir do suco de cajá pra vodka. Me corrija se não estiver certo?

Eu levantei a sobrancelha sem corrigí-lo. Ele riu.

- Você anda fazendo muitos desses cursos de "Como ser um X-Men" pela internet, não anda?

- Não ultimamente... Mas todos os testes que eu fiz tinham uma alta percentagem entre Jean Grey e Professor Xavier, posso me considerar um licenciado para exercer a profissão. - Eu ri. - Finalmente!

- Finalmente? - Perguntei confusa.

- É o primeiro sorriso sincero que vejo no seu rosto em um bom tempo. - Eu sorri pro chão, e baguncei meu cabelo. Era verdade, o pior é que era tudo verdade.

- É, você está parcialmente certo. Só errou o filme. Hoje eu ia assistir Um Príncipe em Minha Vida. - Sentei na ponta da cama e Bruno deitou na cama de Alice olhando pra mim. - Sou tão obvia assim?

- Você não, seu sorriso é. Aquele que você dá quando finge estar bem, é quase da minha natureza interromper a sua performance. É por isso que eu...

- Quer sair comigo hoje? - Perguntei num impulso ponderado, Bruno recebeu o convite como alguém que leva um chute no estômago enquanto dorme.

- Sair? Tipo, "sair"?

- É. Tipo um encontro. Quer?

- Um encontro. Eu e você. Nós dois. Num encontro... - Ele parou quase um minuto assimilando a ideia. - É isso ou te fazer companhia assistindo um filme sobre uma estudante de medicina e o príncipe da Dinamarca. - Eu sorri de novo. - Mas dessa vez eu escolho o lugar, ok?

- Juro que não vou flertar com o músico dessa vez. Palavra de escoteira. - Falei levantando os dois dedinhos.

- Rebeca - Ele me olhou sério - você nunca foi escoteira.

- O que vale é a intenção, não é? - Eu disse revirando os olhos.

Bruno sorriu torto, levantou da cama de Alice, beijou minha testa, bagunçou meu cabelo, andou até a porta e parou por alguns segundos.

- Bruno. - Ele puxou a porta, mas voltou a olhar pra mim.

- Oi.

- Eu também tenho uma condição.

- Qual?

- Me prometa que não vai ser mais indiferente. - Ele concordou com a cabeça. Virou de costas, puxando a porta de novo. - Bruno.

- Oi.

- Obrigada por me achar e me trazer de volta.

- Não foi um favor, Beca. Não precisa agradecer. - Ele falou sorrindo, e saiu.

~

Três toques na porta, um berro na campainha. Alice atendeu, eu entrei, sentei no sofá e assisti umas duas partes da novela ainda, enquanto esperava. Até que eu senti duas mãos perfumadas (e frias devido ao tempo) deitarem sobre os meus olhos.

- Cinquenta centavos como você não adivinha quem é. - Eu sorri.

- Marcela, eu passei mais da metade da minha vida te dando o mesmo perfume de aniversário todos os anos, tem certeza que quer perder cinquenta centavos, fácil assim? - Ela riu e me deu um beijinho na bochecha . - Tá toda bonita e cheirosa, Joãozinho vai se dar bem hoje.

Fez uma careta me dando um tapa no braço mais próximo dela, ajeitou os cachos e depois sorriu indo até a porta. Mas antes que Marcela saísse, ouvi passos no vão do corredor, me virei e sorri, me senti com seis anos outra vez, com meu coração batendo loucamente ridículo, como na primeira vez que eu a vi. Linda era pouco pra Beca, era quase nada se fosse comparar com ela - E eu nem estou falando do vestido curto e quieto ou da maquiagem discreta.

- Enxuga a baba, Bruno! - Marcela falou.

- Não vai sair hoje, Alice? - Beca perguntou, enquanto colocava o brinco que faltava na orelha direita, vindo na minha direção.

- Não, não. O Sal que vai vir pra cá hoje à noite. - As três se olharam de um jeito estranho e riram de alguma piada que eu não entendi.

- Tchau meninas. Só volto amanhã! - Marcela disse, dando uma piscadela indiscreta pra Alice, saindo e fechando a porta antes de ouvir o "Cuidado, sua louca!" das outras duas que continuavam em casa. Só duas, posto que Verônica (e Breno) haviam viajado ainda ontem.

Então Beca me olhou. E de repente ela era o imã mais poderoso do mundo, enquanto eu era só um metal qualquer. Ela veio até mim e eu sussurrei na orelha dela:

- Anda, a noite nem começou.