terça-feira

Capítulo 6 - Janta é coisa de pobre (Parte 3)

- Bom.. - Interrompendo minha melancolia silenciosa, Breno falou quando já estávamos todos confortáveis e acomodados entre dois sofás, uma cadeira e o chão obviamente, que era onde eu estava com Bruno. - Agora que já chegou todo mundo, vamos à pergunta que não quer calar: Cadê essa janta, Marcela?!

Marcela levantou a sobrancelha esquerda. Eu, Alice e Verônica reviramos os olhos.

- Duzentos aninhos de amizade e você ainda não aprendeu nadinha sobre o temperamento Classe Alta que nunca nessa vida desprega dessa criatura, lindinho? - Verônica sussurrou docemente na orelha de Breno, apontando pra Marcela e fazendo a gente morrer de rir.

- Breninho querido. - Ela começou - Não fala "janta". É um jantar! A palavra "janta" é horrorosa. E, bom, "Janta"é..

- Coisa de pobre! - Dissemos Verônica, Alice e eu. E todo mundo caiu na gargalhada.

- Eu perdi as contas de quantas vezes ela fez seu "discurso sobre o jantar" pra Beca. - Alice falou ainda rindo, enquanto segurava a mão de Sal.

- E eu fiz questão de não ouvi-lo nenhuma vez. - Eu disse, fazendo graça.

João riu. Marcela fez uma falsa cara de indignação pra mim, apertando o olhar e tentando um bico (que era a especialidade de Bruno) mas sem conseguir parar de rir.

- Bela imagem que vocês vão fazer de mim na primeira vez que o João vem aqui. Valeu aí hein.

- Ah Marcela, deixa pra gente começar a mentir depois né? - Bruno disse, e eu tomei uns dois goles da garrafinha de Ice dele.

- Né? Sem a gente como é que ele ia ficar sabendo coisas vergonhosas sobre você, tipo ter uma coleção de cds do KLB escondidos numa caixa de sapatos debaixo da sua cama? - Eu disse, ela foi ficando vermelha e todo mundo ainda morrendo de rir. Breno continuou:

- Ou o fato de ter ido pra diretoria na quarta série (eu acho) por ter colado um chiclete no cabelo enorme de uma menina mó gata que fazia o quinto ano porque ela disse que você não sabia dançar ballet! Eu me lembro.. - Eu comecei a rir incontrolavelmente.

- Que malvada, Marcela. - João observou. - E a menina? Teve que cortar o cabelo, né?

- Três dias depois, eu e.. acho que era o Bruno, a gente viu a pobre chegando na escola com a maior cara de desgosto e o cabelo tão curtinho que era quase na orelha...

- Dessa eu não sabia, coitada da menina, Marcela! -Verônica falou levantando, assim como Sal, Alice e Bruno, para trazer a comida pra onde a gente tava.

- Ah, mas dessa aí eu me lembro! - Marcela se manifestou revoltada. - Eu admito que fui pra diretoria por isso, só que quem jogou o chiclete na cabeça dela não fui eu não. Não é, dona Rebeca?

- Ah gente, o que é que eu podia fazer? A menina era mó biscate, tinha ofendido minha amiguinha, eu precisava me vingar, pô... - Todos me olharam com uma cara ironicamente assustada. - Fora que nunca desconfiariam de uma garotinha da segunda série meiga e inocente como eu, logicamente.

- "Inocente"? - Alice, Marcela e Verônica disseram.

- Me lembre de morrer seu amigo, Beca, por favor! - João disse, mesmo sendo sarcastico ele conseguia ser completamente doce.

- Idem! - Falaram todos, enquanto serviam seus pratos e eu claro, fiz questão de uma careta boba para todos eles.

- Mas, mudando de assunto... - Sal começou a falar, e, mesmo com a boca cheia de strogonoff com batata frita, a voz dele conseguia ser, no minimo, estupenda. - Isso aqui tá... MUITO gostoso. - Todos concordamos.

- Obrigada, obrigada por alimentarem o ego dos meus magníficos dotes culinários...

- Isso tá realmente muito gostoso, menina. - João falou, dando um beijo carinhoso na bochecha de Marcela, sentada ao seu lado. - Tem algum segredo na receita?

- Bom... Segredo, segredo não tem. - Ela respondeu - Mas não liguem se, por acaso, vocês encontrarem por aí, pelo meio das batatas, o pedaço decepado da mão da Beca... - Verônica fez uma careta, seguida por Breno e Alice. Eu, Marcela e Bruno rimos um pouco além da conta. João e Sal não entenderam muito bem a piada, até eu levantar minha (até esta manhã) linda mãozinha, que agora estava remendada de um lado a outro.

Contamos toda a história da minha mão decepada, com direito a imitações fabulosas do desmaio épico de Verônica feito por Marcela, e do arrombamento da porta do banheiro, por Alice. Comemos toda a comida que havia na casa. Falamos um monte de besteira, de coisa séria, sobre filmes ruins, sobre bandas boas, sobre política e sobre o vício eterno de Verônica por novelas. Quando acabaram todas as "Ices" partimos para o vinho que João havia trago, e o negócio começou a esquentar.

domingo

Capítulo 6 - Janta é coisa de pobre (Parte 2)

João chegou enquanto ainda estávamos nos arrumando às pressas, todas super atrasadas, ele super pontual. Um doce.

- Boa noite. - Ele falou todo bom moço quando Alice abriu a porta.

- Boa! Entra aí. - Ela falou sorrindo depois voltou pro quarto terminar de se arrumar. João foi entrando sala adentro com seus jeans, sua camisa nerd bonita e seus passos tímidos. Arrumou os óculos e ficou de pé, perto da bancada, segurando uma sacola com uma garrafa dentro.

- Ér.. - Ele começou a falar, envergonhado.

- Marcela tá terminando de se arrumar. - Eu disse, passando o strogonoff muito cheiroso da panela pra travessa usando somente a mão não-esfaqueada, tentando não derramar tudo e acabar com o jantar. - Pode sentar aí em qualquer canto.

- Aquela era a Alice. - Ele supôs, eu sorri e fiz que sim com a cabeça. - Você deve ser a Rebeca.

- Eu mesma. - Eu disse, pondo a travessa sobre a bancada. João olhou pra mim e levantou a sacola.

- E isso aqui, onde eu ponho?

- Ah, me dá aí que eu boto na geladeira. - Peguei a sacola e tirei a garrafa. - Hum, vinho... - Tão nerd educado e bom moço, como eu disse, um doce.

Abro a geladeira e tento arranjar espaço para a educada garrafa de vinho em meio a todas aquelas convidativas garrafinhas de Ice que constavam em nosso estoque pessoal.

- Oi menina... - Ele disse, encantador.

- Oi João. - Marcela falou toda meiga como quase nunca se via. Indiferença, era o que normalmente a definia, mas de alguns tempos (e rapazes) para cá, ela estava ficando mais disposta a prender-se, o que tende a ser bem difícil, uma vez que sua lógica inegável acabava por abstrair qualquer probabilidade de paixões arrebatadoras, romances adocicados ou declarações de amor gritantes. Era bonitinho ver minha amiga tentar.

João sorriu dando um beijo em seu rosto, Marcela sorriu meio envergonhada de eu estar observando a cena fazendo aquela cara de "aaaaaaaaaaaaaawn *~*" estirando-me o dedo médio assim que o bofe desviou o olhar.

Bruno entrou pouco depois, todo lindo numa camiseta que deixava seus ombros mais lindos que o normal, todo fofo no beijo que me deu na mão enfaixada todo cheio de cuidado perguntando se eu já tinha tomado o remédio, todo se querendo quando disse que estava se controlando pra não me agarrar alí na frente de todo mundo e eu me fiz de discreta apenas sorrindo e dando um beijinho na orelha dele antes de dizer que a melhor parte deveria ficar só pra gente, não precisava divulgar. Fez um bico, sorriu deixando o aparelho aparecer, então fomos nos sentar junto com Marcela, João, Breno e Verônica (sendo que os dois últimos estavam numa vibe "Amor I loveYou" que empreguinava todo o resto do ambiente) enquanto Alice ia buscar a câmera lá dentro.

Alguém bateu à porta e dessa vez, eu abri. Mas, porém, contudo, no entanto, todavia, entretanto poderia arranjar mais umas duzentas orações coordenadas sindéticas adversativas como desculpas para não tê-lo feito se soubesse quem estaria atrás dela.

Lá estava ele. Um sorriso torto na cara, o cabelo castanho escuro, quase preto e arrepiado, uma camisa vermelha por cima daquele festival de músculos abençoados por um tom moreno que ai meu Deus do céu o que é que eu estou fazendo..

- Olá... Rebeca, né? - Rouca, grave e perfeita a voz dele invadindo meus tímpanos, desmontando as sílabas do meu nome. Tentei congelar meu rosto de um jeito indiferente, até porque se eu não o fizesse seria perceptível para meio mundo o quanto eu era apenas um pequeno planetinha irrelevante, admirado e girando ao redor do sol que Sal era.

- Arram, oi. - Eu disse. - Er.. Entra.

- Licença... Boa noite. - Sal falou, antes de começar a sorrir feito bobo, como eu queria fazer quando olhava pra ele. Ele sorriu pateta ao ver Alice vindo no corredor. - Boa noite, minha linda.

Minha linda. Imagine um objeto de vidro, não, vidro não. Imagine um objeto de cristal, frágil, delicado e nenhum pouco resistente à abalos. Pronto, um desses acabava de implodir em algum canto entre minha garganta e meu estômago. Alice o olhou, acorrentando a retina de Sal à dela e expulsando qualquer incerteza que eu tinha de que eu havia feito a escolha certa, deu mais dois passos e o abraçou, cheirando o canto do pescoço dele. O que os dois tinham era fim de tarde a semana inteira, não só sábado à noite. Era "I Will Always Love you", não "Crush Crush Crush". Era imóvel, não passageiro. Era "Titanic", não "O Diário da Princesa". Era pra sempre, não pra viagem. Era amor, não só paixão.

quinta-feira

Capítulo 6 - Janta é coisa de pobre (Parte 1)

No fim das contas, ou melhor, no início do fim de semana era esta a situação: Eu tinha alguma coisa com Bruno, coisa que idéia do que é eu não faço, mas tenho. Verônica desde terça não dormia em casa, dando asas à toda a sua criatividade sexual com Breno, que por ser de parede colada com o meu lado do quarto eu era obrigada a ouvir todas aquelas loucuras que vinham do quarto dele no apê ao lado. Alice tá que não desgruda o Sal da boca, fala nele e com ele o dia todo, a tarde toda, a noite toda, eles almoçam juntos todo dia e o melhor, ela me chama pra sentar com eles, resumindo minha amiga resolve me torturar psicológicamente de um modo inconsciente à cada minuto do meu dia. Mas eu sei - Eu não posso dizer nada, nem reclamar de nada - escolhi isso sozinha, então nada de me imaginar arremessando bigornas na testa dela, ok. Eu tinha Bruno, afinal. Bem, Marcela resolveu convidar a todos estes (e seu namorado, João, que agora é namorado mesmo) para jantar esta noite de sexta-feira em nossa humilde residência. E nenhuma frase além de "Vai dar merda" sai da minha cabeça neste momento.

Eram seis da tarde. Nós, na verdade, Marcela fazia o jantar enquanto eu só cortava as coisas que ela mandava. Primeiro tomates, depois umas frutas que só gente rica compra porque fica bonito pra enfeitar, depois as batatas e depois:

- Beca, não faz assim, você vai acabar cortando a.. - minha mão. E começou a espirrar sangue pra tudo que é lado.

- *utaquepariucaralhoporraessecaceteinfeliztádoendo!!! TÁ DOENDO! AH! MARCELA ACODE AQUI! - Balbuciei insanamente, pressionando a mão que esguichava tanto sangue que eu me senti numa poça de catchup, Marcela veio correndo com um pano pra estancar o vermelhô banhando a bancada.

- Anda menina, num deve ser porra nenhuma pra fazer um escandalo desse tamanho, dá cá essa mão pra eu ver, deixa de drama Rebeca. - Ela disse enquanto vinha sem ter visto o corte, quando viu, começou - COMO É QUE UMA CRIATURA É BOCÓ A PONTO DE FAZER UM CORTE DESTE TAMANHO NA PRÓPRIA MÃO, ME DIGA!? - Nisso Alice grita de dentro do banheiro.

- O QUE FOI ISSO?! - E Verônica chega correndo.

- Gente, o que é que vocês gritam tan.. tan.. - Ela foi ficando branca enquanto o pano que marcela havia me dado ficava ainda mais vermelho - Isso.. é sangue?

- É!!! - Gritamos as duas, desesperadas. E eis que a lesada desaba no chão. - VERÔNICA!

- QUE BARULHO FOI ESSE?! AAAAAAAAAAAAAH! SOCORRO! - A outra grita transtornada lá de dentro, e Marcela tentava estancar o sangue e não queimar o jantar, obtendo sucesso somente no segundo item.

- Caaaaaacete. Isso tá doendo!!! ALICEEE!!! CADÊ VOCÊ!? - Eu gritei, já naquela base do desespero.

- TÔ PRESA NO BANHEIRO, A FECHADURA EMPERROU! TA TIPO TRANCADA POR FORA, E EU ESQUECI DE TRAZER A TOAAAALHA!

E em unissono, todas nós - quer dizer, todas que não estavam desacordadas começamos a berrar loucamente:

- SOCORRO! SOOOOOOOOOOOOCOOOOOOOORROOOO!!!

Me vem abrindo a porta desesperados Breno e Bruno (estando o primeiro vestindo apenas uma toalha amarrada na cintura), e se deparam com aquela cena bocó!

- QUE PORRA É ESSA?! - Gritaram os dois juntos. Eu e Marcela, automaticamente olhamos uma pra outra e começamos a rir loucamente, e minha mão continuava a sangrar.

Breno tentou levantar Verônica e Bruno olhava assustado pra minha mão sangrando enquanto Alice chutava a porta incessantemente e Marcela mexia nas panelas um pouco rápido demais explicando todo o acontecido.

- A coisa burra número um se trancou no banheiro sem levar a toalha e não consegue sair, a número dois quase decepa a mão aqui e precisa de um hospital levar pontos nesse caralho desse corte senão vai morrer por falta de sangue que ela já não tinha muito, e a tapada número três caiu feito uma manga podre quando viu o sangue!

- Eu levo a Beca pro hospital. Breno, acorda a Verônica e depois arromba a porta da Alice, e Marcela, o jantar ainda tá de pé? - Bruno disse.

- Claro que tá! - Ela confirmou, ainda rindo, sem tirar a atenção das panelas. Eu pensei que tava desmaiando pelo tanto de sangue que eu perdi, então fechei os olhos pra esperar o baque só que ele não chegou, e quando eu abri os olhos estava nos braços de Bruno, já descendo a escadaria à caminho do carro do avô dele, eu acho. Ele me pôs no banco do carona, e saiu cantando pneu, eu tava meio tonta mas ainda consegui falar:

- Vou sujar o carro.

- Não liga. Fica quieta.

- Mas não vão brigar com você se eu sujar tudo de sangue?

- Não vão. Fica quieta... - Ele olhou pra minha mão ainda meio assustado. - Isso não para de sangrar nunca?!

Chegando num hospital de rico que nunca na vida eu poderia pagar, ele me colocou nos braços outra vez e me carregou até o plantão onde costuraram minha mão de um lado a outro, além de uma injeção e uma porrada de remédio anti-inflamatório pra levar pra casa, suficientes pra eu me dopar por duas semanas. Passamos hora e meia por lá, com a mão enfaixada, dessa vez voltei andando pro carro, com Bruno segurando a outra mão.

- Posso perguntar uma coisa? - Eu perguntei, levantando a sobrancelha.

- Outra? - Eu dei um murrinho no ombro dele com a outra mão. - Pode, pode sim.

- Eu cortei a mão, não o pé. Por que você ficou me carregando nos braços o tempo todo? - Ele bagunçou o cabelo e sorriu fazendo bico, envergonhado.

- Sei lá. Achei romantico. - Eu baixei a sobrancelha sorrindo e olhando pra ele. - Quero só ver o que vai ser desse jantar...

segunda-feira

Capítulo 5 - Abrigo (Parte 3)

Jantei ao som nada doce aos meus ouvidos de Alice contando como havia sido entregar a foto e ficar conversando com Sal até ver que havia perdido a hora do ônibus e sobre como foi bom vir andando porque o céu estava mais lindo do que nunca esta noite. Eu estava pra quebrar a perna da mesa e tacar na cabeça dela pra ver se ela calava a boca, mas eu tinha feito minha escolha, eu sabia que fácil não ia ser, então não podia reclamar, somente ouvir e esperar a comida, enchendo minha boca, mantendo-a ocupada pra que eu nada tivesse que falar, ter a boa vontade de descer goela abaixo.

Breno apareceu à porta, sorrindo.

- Boa noite mulheres mais lindas do meu coração. Que cheiro maravilhoso o desse jantar... Não foi a Beca que fez não, né? - A gente riu, Verônica mandou ele deixar de besteira e entrar logo. Ele riu maroto, ao entrar deu um beijo no rosto de cada uma de nós, e sentou-se bem ao lado de Veronica que olhou-o de um modo não muito comum, interessante.

- Marcela quem fez, sobrou. Você já comeu? - Ela perguntou num tom mais doce do que seu normal, Marcela também percebeu e olhou pra mim com cara de quem ia começar a rir em 3.. 2..

- Não - Breno respondeu fazendo cara de cachorrinho abandonado - O Bruno que é o gêmeo cozinheiro, e ele tá todo estranho desde ontem, não fala nada, não comeu nada o dia todo e acha que eu quero mofar de fome que nem ele. - Eu gelei. Verônica e eu nos levantamos e começamos a rapar as panelas enchendo pratos limpos.

- Vai repetir, Beca?! - As meninas perguntaram estranhando, eu nunca fazia mais de um prato, fazia uma montanha de comida num prato só (amundiçada) mas nunca fazia outro prato.

- Não, não. - Respondi, quieta. - Vou lá deixar um pouco pro Bruno pra ver se ele come... Volto já. - E saí antes de ouvir as piadas prontas na ponta da lingua de Veronica, Breno, Marcela e Alice.

A porta do apartamento dos gêmeos estava entreaberta, mas mesmo assim resolvi bater. Três toques, sem campainha. A situação era tensa demais pra campainhas. Contei até cinco e abri o resto da porta, segurando o prato numa mão e meu coração na outra.

- Bruno?... - Tomei fôlego e chamei sem quase um pingo de voz.

Ele tava lá, deitado no sofá em frente a porta, de olhos fechados, vestindo seu calçãozinho vermelho, com os fones no ouvido e o bico de raiva que ele sempre fazia quando não estava bem. Botei o prato sobre a mesinha perto do sofá o mais discreta e não-estabanadamente que consegui, sem sucesso. Ele abriu os olhos, tirou o fone e sentou no sofá, olhando pra mim de um jeito tão.. inenarrável, que eu não conseguia olhar de volta.

- Eu... Trouxe seu jantar. Fiquei preocupada, Breno disse que você não comeu nada o dia inteiro... Então, - Eu levantei e comecei a ir em direção à porta sem olhar nos olhos dele de novo. - O prato tá aí em cima da mesa, eu já vou andan... - Eu ouvi os passos vindo na minha direção.

- Rebeca. - Ele me chamou. À menos de dois dedos de distância de mim, Bruno fechou a porta, me encostando na parede silenciosamente, eu continuei olhando pro chão. - Olha pra mim. - Eu não tinha saída, então olhei nos olhos dele, mais perto de mim até mesmo que os meus, minhas mãos geladas e o coração dele num disparo tão grande que eu tive medo dele enfartar por nós dois, porque o meu já tinha começado a bater tão rápido quanto a velocidade seis do créu. Durou quase uma eternidade até que ele pedisse - Por favor, não vá agora. - segurando minha mão.

- Eu não vou. Mas você vai comer o que eu trouxe. Breno falou que você... Não come nada desde ontem. - Ele torceu a boca, fez que sim com a cabeça, sorriu de lado e soltou minha mão, indo até o armário da cozinha, pegar garfo, faca e uma lata de refrigerante. Sentou no sofá, pôs o prato no colo e por alguns segundos encarou-o desconfiado. - Não se preocupe com a dor de barriga, não fui eu que fiz, foi a Marcela. - Ele riu e curiosamente começou a comer quase que imediatamente ao saber que não era eu quem tinha cozinhado.

- Vai ficar aí de pé me olhando comer? - Perguntou, com a boca cheia, eu ri e me sentei na poltrona ao lado dele e de frente pra tv. Bruno devorou toda a comida em menos de três minutos onde não se falou nada.

- Então... Eu acho que eu já... - Eu disse tentando levantar da cadeira, só que ele pôs a mão sobre a minha perna, pedindo que eu ficasse mesmo sem falar nada.

- Eu ainda não entendi uma coisa. - Ele começou a falar, apertando os olhos como toda vida fazia quando não estava lá muito certo se iria gostar do que iria falar ou ouvir.

- O porquê de eu ter deixado que aquele beijo de ontem acontecesse depois de te dar um fora no dia que a gente saiu? - Presumi que seria mais fácil se eu concluísse o raciocínio pra ele, e ele concordou.

- Isso. Você pode me responder?

- Posso, mas acharia melhor fazer isso se não tivesse gente tentando ouvir a conversa atrás da porta, sabe? - Falei e automaticamente ouvi a voz de Breno sussurrar um curto "porra", Bruno revirou os olhos, levantou, abriu a porta e lá estavam Verônica e Breno.

- A gente não tava tentando ouvir não, eu juro. - Ela disse, convincente.

- É que ficamos sem graça de abrir a porta e acabar atrapalhando a conversa e tal... - Breno completou, nervoso com a cara que Bruno fazia pro lado dele, mexendo compulsivamente no cabelo que ele insistia em deixar grande pra que parassem de confundir os dois. - Err...

- Anda, entrem logo! - Bruno disse olhando com uma cara de "Te pego na saida" para Breno, que entrou quase correndo no apartamento, seguido por Verônica. Bruno olhou pra mim indicando a saída com a cabeça enquanto pegava uma camisa sobre o móvel da tv. Eu levantei da poltrona e o andei com Bruno até a escadaria.

- Parece que a gente sempre acaba por aqui, né? - Eu disse sorrindo.

Ele se colocou à minha frente, cruzando os braços. Sua mandíbula estava tensa e dava pra ver seu coração acelerado sob a blusa cinza, o vento bagunçando tanto o cabelo dele quanto o meu. Eu tinha de falar.

- Eu preciso de você, Bruno. Preciso que fique perto de mim, mais do que nunca. Eu preciso que me proteja, sei que é o único que pode, porque você é a única pessoa com quem eu me sinto à vontade pra ser verdadeira sobre tudo, mas principalmente sobre mim desde todo esse tempo que nós nos conhecemos. - Eu tentava lembrar de respirar, mesmo sem sucesso - E depois de sexta, eu me dei conta que pra ter isso de você sem que tenha nada em troca, é muito egoísmo da minha parte... Eu sei que tenho sentimentos por você que não consigo entender nem definir, e tenho impressão que isso ainda não é suficiente para ser recíproco ao que você sente por mim, então eu pensei que poderíamos... Tentar, porque sem você eu tenho muito medo de quase tudo, e com você... Eu sinto que tenho um abrigo no meio de tudo isso. E mais uma vez eu peço que me perdoe por isso, por gerar toda essa situação. - Eu fechei os olhos e respirei o mais fundo que consegui, até sentir os braços dele ao meu redor e sua boca na minha outra vez.

sábado

Capítulo 5 - Abrigo (Parte 2)

Levantei com preguiça, faltavam dez minutos pra minha aula na escola comunitária, corri pro banho. Nunca tinha ninguém em casa a essa hora, então eu estava livre de explicações sobre minha cara de enterro ontem, mas não pude me safar por muito mais tempo.

Era terça, as tarefas da terça sempre eram minhas e de Marcela, já que só nós duas não tinhamos aulas (para assistir ou dar) nem na escola comunitária, nem na universidade depois das seis da tarde. Eu não vi Bruno, nem Sal, nem Alice o dia quase inteiro, e eu me senti mal por ficar feliz em relação à isso. Mas eu não tinha como me livrar por muito tempo.

- Beca. - Marcela começou como quem não queria nada. Do mesmo jeito que sempre fazia quando queria saber alguma coisa. Enquanto eu lavava o banheiro estranhamente calada e ela varria a sala.

- Oi. - Respondi normalmente, esfregando a pia com dois dedos exagerados de força a mais que o normal em função de uma crosta de pasta de dentes que alí se alojara.

- Você vai me dizer o que aconteceu ou eu vou ser obrigada a pôr a ponta de uma faca no meio dos seus peitos pra você me falar o que diabo ta acontecendo aqui? - Sabe lá Deus como, mas Marcela conseguia parecer delicada quando falava esse tipo de coisa. Era o jeito dela de ser doce, se preocupando com os outros, e sem nenhuma sutileza nisso.

- Nada, Marcela. Acho que você tá é vendo coisa. - Falei continuando a esfregar a maldita mancha de pasta de dentes na pia, entretida. Marcela apareceu de repente na porta do banheiro, eu olhei pra ela me olhando com o olhar mais inquiridor que eu já havia visto.

- Minta comigo, não pra mim. - Ela disse, eu sorri.

- Você viu a foto? Do flertoso, moreno, da Alice. - Marcela fez que sim com a cabeça com uma cara de "Que porra isso tem a ver com a conversa" - Você olhou bem quem é o cara da foto? - Uns dois minutos se passaram até ela ligar uma história à outra.

- É o seu cara, o da sala de música. Não é? - Ela falou.

- Ele é dela agora. Ele escolheu ela, ele deu em cima dela, e no fim das contas, ela falou primeiro.

- Isso não tem nada a ver Rebeca, você gosta dele, desde antes deles se conhecerem.

- Sim aí eu vou chegar pra Lice: "Oi Lice, sabe esse cara que você não desprega da foto, fica falando dele, de como ele é lindo e de como ele é perfeito enquanto dá em cima de você? Pois é, eu vi primeiro, eu gosto dele, rala biscate!" Não né, Marcela! E além do mais, ela nunca se deixa interessar por ninguém..

- Como se você sempre se deixasse, Beca. Eu nunca te vi olhar pra alguém como você olhou pra ele, sei lá, parecia que não tinha mais ninguém no mundo a não ser ele... - Eu respirei fundo.

- Eu já decidi. O Sal é dela agora, eu não vou fazer nada pra separar eles e nem que eu quisesse faria. E nem você, nem ninguém vai contar pra Alice, certo? Você vai mentir comigo e mentir muito bem mentido. Tá me ouvindo, Marcela?

- Pode deixar. - Ela disse sorrindo sem humor, fez como se fosse voltar pra sala mas voltou - Você é uma boa amiga sabia?

- Eu seria. Se tivesse tido coragem de ficar aqui ontem e frescar com todas as perguntas capciosas que eu tinha pra você sobre uma certa noite passada que a sua pessoa resolveu não dormir em casa, né dona Marcela?! - Eu ri, muito. E como eu presumi, Marcela me estirou a lingua, vermelha de vergonha. Nós duas voltamos à faxina morrendo de rir. - Quem é o bofe?

- É o rapaz mais... - Ela parou assim, olhando pro nada e rindo - Sei lá, doce e inteligente do mundo. Lindo, fofo, tudo. A gente se conheceu e saiu na sexta, no sábado... Mas o domingo... Acho que até dá pra criar esperança com esse, sabe. - Eu sorri olhando enquanto ela contava. - Ele faz publicidade, aulas no mesmo setor que a gente, super carinhoso, cabelinho cacheado, atencioso, tem bom gosto pra se vestir, gosta de musica clássica e, o principal, ele ligou no outro dia... Eu admito, estou apaixonada.

- Como é o nome dele? - Perguntei, enxugando o resto da pia do banheiro e o chão.

- João. - Marcela falou - Acho que eu vou chamar ele pra vir aqui na sexta, daí eu faço um jantarzinho esperto pra todos nós.

- É uma ótima idéia. - Eu disse - Prender o bofe pelo estômago, né safada?

A gente riu e terminou de arrumar o resto da casa mais rápido do que pensávamos, ao som daquele cd interminável do Daughtry.

quarta-feira

Capítulo 5 - Abrigo (Parte 1)

O beijo de Bruno era como eu lembrava, se moldava ao meu. Da primeira vez, naquele aniversário de Marcela, eu lembro de estar toda me tremendo, loucamente nervosa, coração palpitando em velocidade irracional, daí a gente se beijou, e eu senti uma calma inenarrável, como se eu pudesse ter certeza que eu não tava fazendo nada daquilo errado. O beijo de Bruno me dava o que estava faltando no meu. O gosto da proteção, da segurança que eu tanto precisava naquela hora ao alcance da minha boca. Eu simplesmente adorava isso, deixando durar, e durar, e durar sem a mínima noção do tempo que estava passando pela gente naquela escadaria.

Depois que o beijo acabou, demorou alguns giros no ponteiro dos segundos para que pelo menos um de nós dois voltássemos pra esta dimensão. O fato de minhas mãos começarem a tremer pareceu uma reação imediata à ausência da boca dele na minha, tudo veio na minha cabeça outra vez, o gosto amargo da realidade, de Sal ter olhado e ido atrás da Alice e não de mim, de não poder fazer nada pra mudar isso, de estar usando Bruno pra fugir desesperadamente disso tudo. Eu voltei a respirar, fundo que nem o poço onde eu queria me jogar.

Quando eu abri meus olhos, os dele continuavam fechados. Foi um passo-a-passo agoniante: Eu saí do colo dele, sentei por uns três segundos, mordi minha boca em reprovação a mim mesma, levantei e comecei a subir a escadaria em direção à república. Então congelei, ao ouvir:

- "Não me mostre o paraíso e depois o destrua" - Ele disse depois de respirar o mais fundo que pôde. - Eu li isso uma vez, e agora me parece a resposta certa daquela pergunta. É maldade beijar você sabendo que uma hora vai acabar essa sensação, sem ter sequer ideia de quando eu vou poder sentir isso outra vez.

Respirei com dificuldade, voltei três degraus e olhei nos olhos de Bruno com a consciencia tão pesada quanto um elefante de circo. Eu queria pedir desculpas pelo beijo, por não ter conseguido resistir à ideia de usá-lo pra esquecer minha insegurança. Eu queria abraçá-lo, queria me jogar num poço, prometer que não iria iludi-lo nunca mais e que tudo ia continuar normal, como se nada tivesse acontecido. Eu queria tudo isso, mas a unica coisa que saiu foi:

- Me desculpe. - Indo embora à caminho de algum lugar dentro daquele apartamento depois da escada onde o ar não estivesse tão rarefeito.

Era quase meia noite, não havia ninguém na sala. A louça estava lavada, tudo em silêncio. Passei direto pra minha abençoada cama onde por mais filha da mãe que eu fosse em qualquer lugar do mundo, sempre me sentiria acolhida alí. O quarto estava vazio e eu presumi que era Alice quem estava tomando banho - adormeci tão rápido quanto comecei a chorar depois de ter me deitado.

terça-feira

Capítulo 4 - Foto de Segunda (Parte 3)

Eu não disse nada. Apenas tentei sorrir animada enquanto Alice falava dele, gaguejando só por olhar pra foto com a qual ela provavelmente dormiria sem tirar das mãos. Ela falou primeiro, Sal era dela, eu tinha de me acostumar com essa ideia.

Olhando de longe, até mesmo eu me acharia ridícula por estar tão transtornada, eu não tinha sequer trocado duas palavras com ele, mas só em estar no mesmo espaço que ele, da possibilidade de respirar o mesmo ar que ele, minhas pernas já começavam a tremer. Eu sonhava em ouvir aquela voz no meu ouvido bem de pertinho, eu queria vê-lo sorrir pra mim, que ele me abraçasse assim como se agarrava tão carinhosamente àquele violão ao tocá-lo. Só que agora nenhum desses desejos eram mais possíveis, porque Sal era intocavel dela, porque eu não falei nada. Eu tinha de me contentar.

- Beca? Volta pra luz, amiga, o jantar está pronto! - Verônica me chamou, batendo na porta, rindo. Eu sorri, deixando de lado o livro que eu segurava na tentativa de tirar toda aquela situação da minha cabeça, sem sucesso algum. Andei até a cozinha, Alice ainda estava com aquele cacete daquela foto. Eu queria ficar lá e ouvir Marcela explicar seu desaparecimento noturno de ontem à noite, queria encher a paciência dela com perguntas indecentes, queria rir com elas, queria comer o aparentemente saboroso sanduíche que Verônica havia feito, porém eu não aguentava dividir espaço com aquela foto nem com toda a devoção com a qual Alice não parava de babar em cima dela, eu só disse:

- Não tô com fome... Vou dar uma volta. Beijo! - E saí de lá sentindo o olhar desconfiado de Marcela nas minhas costas.

Fiquei sentada ao pé da escada na entrada da república, pensando da morte da bezerra, sentindo uma agonia misturada com raiva, ciúme e uma sensação de falha que nunca me havia ocorrido. Era involuntário, quando percebi meus olhos já estavam enchendo d'água, mas tratei de enxugá-los rapidamente ao ouvir passos se aproximando.

- Tudo bem aí? - Eu levantei o olhar para Bruno, dei de ombros e sorri sem vontade, fazendo que sim com a cabeça. - Acho que você deve estar querendo ficar só então eu já v... - Ele falou começando a subir os degraus, eu interrompi.

- Eu posso falar com você? - Bruno olhou pra mim daquele jeito que só ele conseguia fazer, fez que sim com a cabeça e sentou perto de mim.

- Tava resolvendo umas coisas da escola comunitária, umas contas que o meu avô me mandou pagar, fiquei na fila até uma hora dessas, acredita? - Ele disse, apontando pro relógio, eram quase dez da noite.

- Já fiquei várias vezes até uma hora dessas também. Tudo culpa dos velhinhos que não pegam fila, sempre que era minha vez, vinham uns sete e eu sempre tinha que passar mais dez minutos na fila por cada um, haha. - Nós dois ficamos um tempo em silencio, até Bruno perguntar:

- O que você quer falar comigo?

- Queria te pedir desculpas, acho que fui meio grossa com você, naquele dia que a gente saiu... - Ele deu de ombros e sorriu de lado.

- Não se preocupe com isso.

- Eu me preocupo, porque eu me importo com você. Pode não ser do jeito que você queria, mas eu me importo, e me mata pensar que eu de alguma forma estou magoando você...

- Rebeca. - Ele me interrompeu.

- Oi. - Eu parei de falar e olhei pra ele.

- Você não tem de se desculpar por nada, mesmo querendo você, eu te quero feliz antes de qualquer coisa, e não é assim que você me parece agora. Não se preocupe comigo, você não precisa me falar o que aconteceu, só que eu faço o que você quiser pra você ficar bem, Beca. - Ele disse se chegando, sem intenções, eu pus minha cabeça no colo dele e me senti confortável e protegida o bastante pra desabar a chorar, enquanto ele passava os dedos indo pelo meu braço até a borboleta na minha nuca.

- Desculpa mesmo assim.. - Falei quando consegui parar de soluçar, sem tirar os olhos do chão. - E obrigada por estar aqui.

- Quando é que você vai botar nessa sua cabeça grande que eu sempre vou estar do seu lado quando você precisar, Beca? - Ele disse, fastando meu rosto pro lado, pra que eu pudesse olhar pra ele. - Quando você quiser.

Eu baguncei o cabelo dele agradecendo. Se o mundo fosse como deveria ser, seria de Bruno, não de Sal essa voz o tempo inteiro na minha mente. Nós dois sorrimos. *Mas quem sabe eu não posso escolher isso por mim mesma..?* Ressoou aquela vozinha no meu inconsciente, me dando, de repente uma idéia. *Vai que dá certo?* Eu não me permiti pensar duas vezes.

Bruno ainda sorria quando eu puxei delicadamente seu queixo, deixando a boca dele perto da minha, deixando que ele me beijasse. E ele, mesmo confuso, o fez.